Por um esporte que transforma

É muito comum e chega até ser clichê a fala de que “sem sacrifício não se chega aonde se quer.” O princípio estaria errado?  Creio que não; o que ocorre, porém, é que está bem longe de ser uma verdade absoluta. Há muito romantismo acerca de que todos os objetivos são passíveis de alcance, ainda mais quando se considera o esporte profissional e, em especial, o futebol.

Olhar para o fruto maduro e bonito, às vezes, embaça a lembrança de quando ele foi uma semente e quase foi carregada pelo vento, ou comida pelas formigas, ou esturricada pelo sol, ou encharcada pela chuva. Passou. Vingou! E as intempéries ficaram para trás.

O ideal de jogador cujo valor ultrapassa milhões, desejado por clubes europeus, aquece o coração e enche de esperança muitos pais, afinal de contas, esse atleta “dos milhões”, há bem pouco tempo, era mais um dos meninos como tantos outros. Tornar-se mais um desses parece ser o objetivo e, talvez, a certeza de tantos responsáveis, por isso a seriedade exigida e a cobrança para que as crianças sejam cada vez melhores, mais ofensivas, mais determinadas, mais, mais e mais…

Você já conheceu algum engenheiro que começou a se preparar para essa carreira, efetivamente, aos 6 anos? Algum advogado que, aos 9, dominava boa parte dos artigos da Constituição? Um dentista que, quem sabe, aos 12, fazia, pelo menos, uma obturação?

Nossos atletas, desde muito cedo, são preparados para serem  profissionais, quando, muitas vezes, eles nem têm a noção de um esporte como carreira; jogar bola, para eles, é uma brincadeira, uma diversão. Quando o que era para ser lúdico se transforma em uma obrigação, corre-se o risco de que essa criança, aos poucos, perca a alegria e o interesse pelo esporte. O ritmo intenso de treinos, calendário de competições, derrotas inevitáveis, competitividade extrema, pressão dentro e fora das quadras podem ser fatores de desmotivação.

O grande desafio das famílias de atletas é pela conciliação e pelo equilíbrio entre uma infância/adolescência saudável e essa rotina de preparação na base. Os atletas não podem “queimar etapas”, eles precisam viver de modo pleno cada fase da vida e isso significa ter formação escolar, conviver em outros grupos que não sejam apenas os companheiros de esporte, aproveitar momentos de lazer e ter tempo para ser criança divertindo-se de outras formas.

É muito importante dar conhecimento à escola da rotina do atleta para que haja um olhar mais compreensivo para um eventual cansaço, além de poder contar com o estímulo de seus professores para atingir seus objetivos enquanto aluno. Uma criança que é atleta tende a ter um comportamento diferente das demais. Geralmente são mais exigentes consigo mesmas, menos tolerantes ao erro e isso pode gerar um comportamento de ansiedade, por isso a importância de um olhar mais atento por parte dos professores.

Vale lembrar que, atrelados a todos esses aspectos de preparação na base estão inseridos todos os benefícios que a prática do esporte traz e isso precisa estar claro para o atleta. Ele deve ter a consciência de que, mesmo se não chegar a ser um profissional, é de grande valia o esporte na infância e na adolescência: pertencer a uma equipe, aprender a respeitar regras, ter responsabilidade, praticar uma atividade física orientada por profissionais, participar de viagens, conhecer pessoas diferentes… isso é uma bagagem que ficará para sempre com ele.

Se a criança for orientada nesse sentido, perceberá que o esporte é mais um elemento para a sua capacitação como cidadão e não sofrerá tão fortemente a frustração se não “chegar lá”.

Os frutos, um dia, serão colhidos e serão variados, visto que as sementes são diversas. Se delas brotarão novos ídolos para nosso esporte, será maravilhoso. Se nessa colheita, contudo, houver tantos cidadãos de bem, solidários, que exercem a empatia, conhecem seu papel na sociedade e buscam viver de maneira digna, trabalhando e produzindo na área que escolheram, será “gol” do mesmo jeito.

Pensemos no esporte como um meio de transformação e não somente como um fim.

 

 

Autora: Cláudia Botelho
Professora e Pedagoga, idealizadora do Projeto Bate Bola Kids.
Sócia fundadora do Instituto Pensando Esporte

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