A “tragédia” da tomada de decisão no treinamento do futebol

Podemos dizer que nos últimos 20 anos, a partir do século XXI, a velocidade da informação, aliada com as novas tecnologias e a intensa globalização, possibilitou uma oferta gigante de metodologias de treinamento, dentro do meio do futebol. Essa variação de métodos sempre existiu, mas atualmente o acesso a elas é muito mais facilitado.

No Brasil, e sendo mais específico, falando de categorias de base de futebol ou futsal, temos dificuldade em identificar uma metodologia, de âmbito nacional, ao longo da história. Podemos sim, de forma clara, ver algumas características nesse jogador brasileiro, como um atleta habilidoso, de fácil drible, de soluções criativas, dentro do campo do futebol, mas são inúmeros formatos para se chegar a esse atleta.

Ainda numa linha mais antiga de treinamento, um tripé aparecia de forma constante. Partes físicas, técnicas e táticas, normalmente compunham uma sessão de treinamento ou um micro ciclo de uma semana. Com o passar do tempo, a primeira parte do tripé a cair foi o aspecto físico, que praticamente desapareceu dos treinos, como uma valência isolada. Claro que todos os times levam em consideração a parte física, mas ela é desenvolvida, não como uma parte separada, mas dentro das necessidades e especificidades do desporto.

É possível treinar a parte física, num modelo mais antigo? Corridas longas, exercícios sem bola, trabalhos em salas de musculação com o objetivo de hipertrofia? Claro que é! É o melhor método? Talvez não seja.

A prática dos elementos técnicos, ou fundamentos, esteve sempre presente dentro do treinamento do futebol. Passe, chute, condução da bola, dentre outros, são conceitos que praticamente todos os treinadores exercitavam e exercitam seus atletas nas sessões de treino.

Então os conceitos mais modernos trazem uma abordagem nova, pelo menos por aqui, que é o treino sistêmico. Por definição, o termo sistêmico é definido como “a compreensão das partes particulares de um sistema, por meio da compreensão de seu todo conceitual. Opõe-se ao analítico.”

Os termos analítico e global sempre estiveram presentes ao se falar sobre treinamento esportivo. Analítico remete a exercícios fracionados e o global é o “grande jogo, aprender o jogo, jogando.” Com a chegada do sistêmico, numa forma primária de entendimento, ele se coloca entre o analítico e o global, buscando reunir as vantagens de ambos.

Nos últimos anos, e ainda seguindo a mesma linha do que foi feito com a questão física, os treinos mais modernos, usando a abordagem sistêmica, englobam todas (ou a maioria delas) das partes do jogo, em um modelo de treinamento único, que prima pela parte tática, seja ela individual ou coletiva, e que a tomada de decisão feita pelo jogador, ganha uma enorme importância.

Temos então outro termo relativamente moderno, tomada de decisão. Prefiro entender como tática individual, que defino como “a reunião de elementos específicos fundamentais para o entendimento do desporto como um todo, que são exercitados e consolidados de forma individual, servindo como base para um ótimo desenvolvimento de comportamentos táticos coletivos.”

A entrada dos mini jogos, que têm como objetivo, fazer com que o jogador exercite todas as valências do jogo, próximas a realidade do mesmo, tomou conta dos treinamentos nos últimos anos. A expectativa é que, com esse método, seja possível atender todas as necessidades do atleta. Voltando ao exemplo que falamos da parte física, o treinador consegue trabalhar tudo no método sistêmico? Sim! É a melhor forma? Talvez não seja…

Mini jogos, ou jogos condicionantes, trazem um exemplo de atividade excelente para o treinamento, intenso, com vários jogadores participando ao mesmo tempo. Mas não responde a todas as necessidades do jogador. Podemos entender que esses jogos, são uma evolução do ensino da tática dentro do futebol e precisamos evoluir também o ensino da técnica, para que esteja dentro da realidade do jogo, sendo assim, útil para aquele grupo de atletas.

Voltando para a cultura brasileira do futebol, a técnica ganha ainda mais importância, e, por diversas razões, essa importância perdeu-se com a chegada da abordagem sistêmica. Tomar decisão é fundamental, como ter uma alta qualidade de passe, de drible, como entender uma linha de marcação e executar uma jogada ensaiada de escanteio.

Entendo que uma guinada, de retorno a valorização da técnica no futebol, usando tudo que temos de mais moderno para treinamento, seja crucial para que seja possível termos melhores atletas, principalmente nas categorias de base. Uma ótima relação ensino-aprendizagem, com seu olhar voltado para o desenvolvimento dos elementos técnicos, com exercícios em alta intensidade e com correções atentas ao gestual motor do jogador, é um caminho para termos um atleta altamente capacitado tecnicamente.

“Mas não adianta termos um jogador bom tecnicamente que não saiba decidir corretamente na hora do jogo!” Perfeito! E também não adianta termos um atleta que decida certo, mas execute errado! Afinal, futebol não é algo teórico…

Não iremos ter um modelo perfeito de treinamento, nem hoje, nem nunca. Mas podemos ter um modelo equilibrado, que atenda as necessidades do grupo de atletas e do clube. E o equilíbrio surge do olhar do treinador para trabalhar todas essas valências, da melhor maneira, e principalmente, sem perder a característica cultural do futebol brasileiro.

 

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte

Um comentário em “A “tragédia” da tomada de decisão no treinamento do futebol

  1. Show Rodrigo… Eu como pai de criança q tem o sonho de ser um atleta, entendo bem isso… muito difícil encontrar profissional com esse entendimento… parabéns !!!

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