O curioso caso de Jamie Lawrence e a formação no futebol – Parte II

Voltamos com a segunda e última parte da saga de Jamie Lawrence, e todo o processo de formação dele como um jogador de futebol até a sua profissionalização. Para quem não conhece o início da história, acesse a primeira parte da narrativa, clicando aqui.

Esse texto é a segunda parte de um texto original do site inglês The Correspondent, escrito pelo jornalista Michiel De Hoog. É uma história verídica contada a partir do ponto de vista do próprio Jamie e de seu pai, Steve Lawrence. Confira a parte II!

 

Em 2007, um acontecimento mudou os rumos do pequeno Jamie Lawrence e de sua família. Em anos anteriores, a mãe de Jamie, Lynne, trabalhou por um tempo com uma Escola Internacional, localizada em Amsterdã. Naquele ano, recebeu um convite para uma vaga na sede da escola, o que necessitaria de uma mudança familiar da Inglaterra para a Holanda. Lynne aceitou a vaga e Steve começou a mandar e-mails para diversos clubes holandeses pedindo uma oportunidade para que Jamie pudesse treinar.

Demorou um ano, mas em abril de 2008, Rene Moonen, diretor das categorias de base do HFC Haarlem, respondeu a Steve e Jamie foi aprovado para integrar ao time de base. Steve tinha um “motivo”, além do talento do filho. Na Holanda, Jamie era quatro meses mais velho do que na Inglaterra, já que lá, era usado o ano calendário, indo de janeiro a dezembro, diferente do modelo inglês, que reunia os jogadores de setembro a agosto. 

Jamie fez sucesso nas equipes do HFC Haarlem e era o zagueiro titular do time sub 17. Chamou tanta atenção que o Ajax, maior clube do país, convidou-o para integrar sua equipe sub 18, ao final da temporada. Cinco anos depois de ter sido dispensado do Arsenal, Jamie Lawrence estava num outro gigante europeu.

Com esse novo status do filho, Steve voltou a se comunicar com a federação inglesa de futebol, avisando que tinha um jogador inglês se destacando na Holanda, para que ele pudesse ser lembrado para as seleções de base do país. Por parte da mãe, Jamie também tinha nacionalidade galesa e Steve mandou o mesmo e-mail para a federação do País de Gales. Ambos e-mails também seguem sem resposta até agora.

No sub 19, surgiram alguns problemas, como uma contusão muscular sofrida por Jamie e até um problema no coração, que o tirou do campo durante vários meses. Além das lesões, o fantasma da idade relativa voltava a assombrar a família Lawrence. Steve fez um levantamento com as equipes Sub 18 e sub 19 do Ajax e dos 37 jogadores analisados, apenas cinco tinham nascido entre agosto e dezembro, já incluindo Jamie. 

Em 2010, outro clube holandês, o AZ Alkmaar, demonstrou interesse em Jamie. O jogador estava chegando naquele ponto de não pertencer as categorias de base e buscar um contrato profissional. Após uma reunião com Olde Riekerink, diretor da base do Ajax, Steve e Jamie decidiram permanecer no Ajax, já que foi garantido que o clube iria cuidar com todo o carinho do atleta.

O carinho durou 4 meses.

O treinador do time profissional do Ajax, Martin Jol, trocou o clube pelo inglês Fulham e Frank de Boer foi promovido do time júnior para o elenco principal. Com isso, Dick de Groot assumiu a antiga vaga da De Boer e logo dispensou Jamie. 

Sem time para o filho, Steve voltou ao trabalho. Já como jogador profissional, Jamie jogou uma temporada no Sparta e duas no RKC Waalwijk, ambos clubes holandeses, mas sem chegar a jogar um jogo da liga nacional. Já em paralelo, Jamie começou a cursar gerência esportiva na Academia Johan Cruyff, já imaginando outra alternativa de carreira, mas ainda dentro do futebol.

Chegamos no verão de 2014, Jamie fazendo 23 anos, e a cada dia que passa, a carreira de Jamie parece perto do fim.

Em junho de 2015, Steve consegue um teste para Jamie no AS Trencin, clube da Eslováquia. Numa reunião com o dono do clube, Tscheu La Ling, foi passado para a família Lawrence qual era o objetivo do Trencin. “Nós contratamos jogadores com defeitos, consertamos-os e vendemos por um preço mais alto.” Simples assim.

Jamie topou a ideia e se tornou logo um dos destaques do time. Com muita paciência, a grande oportunidade chegou em 2018. Após ter sido campeão nacional na temporada passada, o Trencin se qualificou para disputar uma vaga para a fase de grupos da Liga Europa e iria enfrentar o gigante holandês Feynoord, em um mata mata. Após um empate na primeira partida, um sonoro 4 a 0 a favor do Trencin colocou o time e Jamie na grande vitrine do futebol europeu.

Duas semanas depois, Jamie assinava com o Anderlecht, da Bélgica.

Steve seguiu com os e-mails para as federações nacionais, promovendo Jamie. Até que Mark Evans, secretário internacional da federação do País de Gales, leu, gostou e chamou a atenção de Albert Stuivenberg, auxiliar técnico de Ryan Giggs, na seleção galesa. Após algumas visitas a jogos do Anderlecht, J.Lawrence surgiu na lista de convocados em novembro de 2018, ao lado de Gareth Bale e Aaron Ramsey, maiores estrelas da seleção naquele momento.

Jamie praticou o hino em frente ao espelho por diversas vezes. Estava tenso, e ficou mais ainda em conhecer pessoalmente Giggs, uma lenda do Manchester United e de toda uma nação. O maior ídolo na infância de Jamie foi o atacante francês Eric Cantona, que junto com Giggs, ganharam inúmeros títulos pelo United. 

Chegando no hotel da seleção, Jamie estava quase entrando no seu quarto, quando viu Giggs no corredor:
– Jamie, vamos no restaurante bater um papo.
– Ok! – e ambos conversaram sobre futebol, a infância de Jamie, seus hobbies…

Sim, Jamie Lawrence era jogador de futebol profissional e membro da seleção de País de Gales.

 

Até hoje, Jamie jogou seis jogos pela seleção de País de Gales, e estava bem contado para integrar o elenco que iria participar da Euro 2020, adiada por conta da pandemia do coronavírus. Em 2019, foi emprestado pelo Anderlecht para o St. Pauli, time que joga a segunda divisão alemã. Steve segue mandando e-mails sempre que pode mas ainda não conseguiu entender como essa tal de idade relativa causa tanto mal para milhares de crianças por todo o mundo.