O curioso caso de Jamie Lawrence e a formação no futebol – Parte II

Voltamos com a segunda e última parte da saga de Jamie Lawrence, e todo o processo de formação dele como um jogador de futebol até a sua profissionalização. Para quem não conhece o início da história, acesse a primeira parte da narrativa, clicando aqui.

Esse texto é a segunda parte de um texto original do site inglês The Correspondent, escrito pelo jornalista Michiel De Hoog. É uma história verídica contada a partir do ponto de vista do próprio Jamie e de seu pai, Steve Lawrence. Confira a parte II!

 

Em 2007, um acontecimento mudou os rumos do pequeno Jamie Lawrence e de sua família. Em anos anteriores, a mãe de Jamie, Lynne, trabalhou por um tempo com uma Escola Internacional, localizada em Amsterdã. Naquele ano, recebeu um convite para uma vaga na sede da escola, o que necessitaria de uma mudança familiar da Inglaterra para a Holanda. Lynne aceitou a vaga e Steve começou a mandar e-mails para diversos clubes holandeses pedindo uma oportunidade para que Jamie pudesse treinar.

Demorou um ano, mas em abril de 2008, Rene Moonen, diretor das categorias de base do HFC Haarlem, respondeu a Steve e Jamie foi aprovado para integrar ao time de base. Steve tinha um “motivo”, além do talento do filho. Na Holanda, Jamie era quatro meses mais velho do que na Inglaterra, já que lá, era usado o ano calendário, indo de janeiro a dezembro, diferente do modelo inglês, que reunia os jogadores de setembro a agosto. 

Jamie fez sucesso nas equipes do HFC Haarlem e era o zagueiro titular do time sub 17. Chamou tanta atenção que o Ajax, maior clube do país, convidou-o para integrar sua equipe sub 18, ao final da temporada. Cinco anos depois de ter sido dispensado do Arsenal, Jamie Lawrence estava num outro gigante europeu.

Com esse novo status do filho, Steve voltou a se comunicar com a federação inglesa de futebol, avisando que tinha um jogador inglês se destacando na Holanda, para que ele pudesse ser lembrado para as seleções de base do país. Por parte da mãe, Jamie também tinha nacionalidade galesa e Steve mandou o mesmo e-mail para a federação do País de Gales. Ambos e-mails também seguem sem resposta até agora.

No sub 19, surgiram alguns problemas, como uma contusão muscular sofrida por Jamie e até um problema no coração, que o tirou do campo durante vários meses. Além das lesões, o fantasma da idade relativa voltava a assombrar a família Lawrence. Steve fez um levantamento com as equipes Sub 18 e sub 19 do Ajax e dos 37 jogadores analisados, apenas cinco tinham nascido entre agosto e dezembro, já incluindo Jamie. 

Em 2010, outro clube holandês, o AZ Alkmaar, demonstrou interesse em Jamie. O jogador estava chegando naquele ponto de não pertencer as categorias de base e buscar um contrato profissional. Após uma reunião com Olde Riekerink, diretor da base do Ajax, Steve e Jamie decidiram permanecer no Ajax, já que foi garantido que o clube iria cuidar com todo o carinho do atleta.

O carinho durou 4 meses.

O treinador do time profissional do Ajax, Martin Jol, trocou o clube pelo inglês Fulham e Frank de Boer foi promovido do time júnior para o elenco principal. Com isso, Dick de Groot assumiu a antiga vaga da De Boer e logo dispensou Jamie. 

Sem time para o filho, Steve voltou ao trabalho. Já como jogador profissional, Jamie jogou uma temporada no Sparta e duas no RKC Waalwijk, ambos clubes holandeses, mas sem chegar a jogar um jogo da liga nacional. Já em paralelo, Jamie começou a cursar gerência esportiva na Academia Johan Cruyff, já imaginando outra alternativa de carreira, mas ainda dentro do futebol.

Chegamos no verão de 2014, Jamie fazendo 23 anos, e a cada dia que passa, a carreira de Jamie parece perto do fim.

Em junho de 2015, Steve consegue um teste para Jamie no AS Trencin, clube da Eslováquia. Numa reunião com o dono do clube, Tscheu La Ling, foi passado para a família Lawrence qual era o objetivo do Trencin. “Nós contratamos jogadores com defeitos, consertamos-os e vendemos por um preço mais alto.” Simples assim.

Jamie topou a ideia e se tornou logo um dos destaques do time. Com muita paciência, a grande oportunidade chegou em 2018. Após ter sido campeão nacional na temporada passada, o Trencin se qualificou para disputar uma vaga para a fase de grupos da Liga Europa e iria enfrentar o gigante holandês Feynoord, em um mata mata. Após um empate na primeira partida, um sonoro 4 a 0 a favor do Trencin colocou o time e Jamie na grande vitrine do futebol europeu.

Duas semanas depois, Jamie assinava com o Anderlecht, da Bélgica.

Steve seguiu com os e-mails para as federações nacionais, promovendo Jamie. Até que Mark Evans, secretário internacional da federação do País de Gales, leu, gostou e chamou a atenção de Albert Stuivenberg, auxiliar técnico de Ryan Giggs, na seleção galesa. Após algumas visitas a jogos do Anderlecht, J.Lawrence surgiu na lista de convocados em novembro de 2018, ao lado de Gareth Bale e Aaron Ramsey, maiores estrelas da seleção naquele momento.

Jamie praticou o hino em frente ao espelho por diversas vezes. Estava tenso, e ficou mais ainda em conhecer pessoalmente Giggs, uma lenda do Manchester United e de toda uma nação. O maior ídolo na infância de Jamie foi o atacante francês Eric Cantona, que junto com Giggs, ganharam inúmeros títulos pelo United. 

Chegando no hotel da seleção, Jamie estava quase entrando no seu quarto, quando viu Giggs no corredor:
– Jamie, vamos no restaurante bater um papo.
– Ok! – e ambos conversaram sobre futebol, a infância de Jamie, seus hobbies…

Sim, Jamie Lawrence era jogador de futebol profissional e membro da seleção de País de Gales.

 

Até hoje, Jamie jogou seis jogos pela seleção de País de Gales, e estava bem contado para integrar o elenco que iria participar da Euro 2020, adiada por conta da pandemia do coronavírus. Em 2019, foi emprestado pelo Anderlecht para o St. Pauli, time que joga a segunda divisão alemã. Steve segue mandando e-mails sempre que pode mas ainda não conseguiu entender como essa tal de idade relativa causa tanto mal para milhares de crianças por todo o mundo.

 

 

O curioso caso de Jamie Lawrence e a formação no futebol – Parte I

O texto de hoje é o relato real feito no site inglês The Correspondent, muito bem escrito pelo jornalista holandês Michiel De Hoog. Ele traz a saga de Jamie Lawrence, um jogador profissional de futebol, que também representa a seleção de País de Gales. A história relata todo o processo feito por Jamie e seu pai, pelas mais diversas categorias e clubes de futebol, de vários países.

O texto original é bem longo, então separamos a história em 2 partes, e trazemos a primeira para todos vocês. Deixo aqui uma opinião bem pessoal que, com todos os estudos que temos hoje, a gama de informações a disposição de todos os profissionais das categorias de base, a história de Jamie Lawrence é um exemplo da realidade atual, brasileira ou internacional, de como ainda temos um longo caminho a percorrer.

 

“O Curioso caso do futebol internacional que ninguém ficou sabendo (porque ele nasceu no mês errado)”

 

Podemos considerar que foi a convocação mais estranha para uma seleção nacional na história do futebol.

Até o dia que Jamie Lawrence foi convocado para a seleção de País de Gales, ninguém no país o conhecia e ele não conhecia ninguém no país. Jamie Lawrence não nasceu no País de Gales, nunca jogou lá e não tem família no país. Ele não fala a língua oficial, nunca jogou nas seleções de base do País de Gales e nunca teve um contato com a Federação de futebol do país.

Jamie Lawrence nunca esteve no País de Gales.

Era algo estranho, ainda mais para um país sem muitas opções de jogadores para serem convocados. Toda federação deseja manter um acompanhamento de todos os seus atletas, ainda mais uma que deseja enfrentar as grandes potências mundiais do futebol. Ainda mais se falarmos sobre um zagueiro canhoto, algo que sempre está em falta no esporte. E mesmo assim, ninguém sabia quem era Jamie Lawrence.

Na tarde do dia 5 de novembro de 2018, Ryan Giggs, ex-jogador do Manchester United e técnico da seleção do País de Gales, anunciou sua lista de convocados para uma partida decisiva contra a Dinamarca, válida pela Liga das Nações. A folha distribuída aos jornalistas presentes apresentava um J.Lawrence. Os repórteres começaram a conversar entre si e a conclusão era que tivemos um erro de digitação, o correto era T.Lawrence, atacante do Derby County, time da segunda divisão inglesa. Mas na lista estava lá, T.Lawrence também. Então quem era o J?

O Google nos respondeu que J.Lawrence era um zagueiro do clube belga Anderlecht. E era só isso.

O comentarista da BBC, Rob Phillips, começou a entrevista da forma tradicional, perguntando sobre a estrela do time, Gareth Bale, craque do Real Madri. Lá pela quarta, quinta pergunta, Phillips disparou:
– “Você fez todos aqui pesquisarem o google sobre James Lawrence, do Anderlecht. Pode nos dizer como você chegou até ele?
– “Ficamos sabendo dele nos últimos seis meses. Ele tinha ficado perdido no processo.”, respondeu Giggs.
– “E como ficou sabendo dele
?”
– “Fui avisado por um funcionário da federação do País de Gales.”, completou Giggs.

Seguimos vasculhando o google, que não nos deu muita informação. Uma entrevista rápida no site do Anderlecht, algumas matérias em eslovaco, quando Jamie jogava no AS Trencin e muitas outras sobre outros Jamie Lawrence muito mais famosos. Na época, os torcedores chegaram a criar uma hashtag famosa no Twitter, #jamielawrencefacts , na busca de maiores informações.

Ao mesmo tempo, em Bruxelas, Jamie Lawrence chorava de emoção por sua primeira convocação à seleção nacional. Em Amsterdã, Steve Lawrence, pai de Jamie também chorava de emoção, e finalmente podia confirmar o que sempre acreditou. O excepcional talento do filho para jogar futebol.

E essa história começou quando Jamie tinha 3 anos. Steve o via jogar contra meninos mais velhos, e ter sucesso. Quando Jamie tinha 6 anos, já jogava contra e vencia jogos contra meninos de 9 anos. Então aos 7 anos, Jamie se tornou um atleta da Arsenal Advanced Academy, uma escola particular de futebol, onde os olheiros do Arsenal costumavam captar jovens jogadores para o clube.

Na primavera de 2000, Steve estava vendo um treino do filho, quando um outro homem chegou a seu lado e teve uma conversa que mudou pra sempre a vida de Lawrence pai.

– Aquele é o seu filho?
– Sim.
– Bom jogador, talentoso. Quando ele nasceu?
– 22 de agosto.
– Ah, que pena…
– 
Oi?
– 22 de agostoEle não vai conseguir se tornar um jogador profissional de futebol.

Sem entender muito bem aquele papo, Steve chegou em casa e começou a procurar informações sobre aquele tema. Com o google ainda engatinhando, teve dificuldade na busca, mas depois de muito tempo, achou um artigo: “Sucesso no hóquei no gelo e sua data de nascimento. O efeito da idade relativa.”

O artigo trazia a informação que a grande maioria dos melhores jogadores de hóquei do país nasceram nos meses de janeiro, fevereiro ou março. Os autores suspeitavam que isso acontecia pela reunião de jovens atletas e sua separação de acordo com o ano de nascimento.

O artigo fazia sentido para Steve, mas ele pensou: “Ah, mas isso é hóquei no gelo, lá no Canadá, não tem nada a ver com futebol.” Alguns meses depois, Steve descobriu um artigo inglês, que chegava na mesma conclusão do canadense. A diferença era que o calendário usado na Grã Bretanha seguia o ano escolar, portanto começava em setembro e terminava em agosto. No Canadá, o início era em janeiro e seu fim, em dezembro.

Exemplificando. Uma criança na Inglaterra, que nasceu em setembro de 2010, jogava no mesmo time e na mesma liga, com e contra outras crianças que nasceram entre setembro/2010 até agosto/2011. Alguém nascido um mês antes, em agosto/2010, jogava em uma outra categoria, que começava em setembro de 2009.

Uma dúvida surgiu na cabeça de Steve. Será que os treinadores e olheiros não sabiam dissoSerá que eles tinham a consciência que estavam ignorando quase metade das criançasE logo após, o maior medo: “O que será da vida esportiva do pequeno Jamie?”

Não demorou muito para Steve começar a ter respostas. No verão de 2001, Jamie foi convidado a participar de um torneio com o time sub 9 da academia do Arsenal. O time era qualificado. Por exemplo, no comando do ataque, tinha um certo Harry Kane, hoje craque do Tottenham Hotspur e capitão da seleção inglesa. Jamie jogou muito bem, mas no ano seguinte, algumas coisas começaram a mudar…

No sub 10, Steve via alguns atletas assinando contratos, recebendo chuteiras e uniformes, os treinadores do Arsenal dando constante feedback sobre o desenvolvimento das crianças, e Jamie estava fora disso tudo. “Eu estava sempre no Arsenal, mas nunca fui realmente uma parte do clube.”, disse Jamie, lembrando aquele época.

Em 2003, Steve e Jamie foram chamados para uma reunião na academia e informados que o jovem não seguiria mais no elenco. Steve logo lembrou do artigo: “Estava escrito! É o efeito da idade relativa na prática.” Ele retornou ao artigo e leu que muitas crianças que “nasceram no mês errado” não geravam grande expectativas nos treinadores e as constantes dispensas causavam uma enorme frustração neles e muitos desistiam da prática esportiva. Steve fez uma promessa a si mesmo, que não iria deixar isso acontecer com o jovem Jamie.

Uma das ações de Steve foi redigir uma carta para a Federação Inglesa de Futebol, alertando-a dos efeitos da idade relativa. A mesma segue sem resposta até hoje. Essa carta foi a primeira de muitas, para a federação e também para a comissão européia do futebol. Esta última teve uma resposta, pedindo uma alternativa para Steve. Após vários meses desvendando o mundo da informática, ele desenvolveu um programa que calcula uma idade média, para cada time, levando em conta o mês e não só o ano de nascimento. Steve ainda aguarda uma posição da comissão.

Voltando a 2003. Após a liberação, Jamie jogava em clubes locais até que um olheiro do Queens Park Rangers, tradicional clube inglês, convidou-o para as categorias de base. A experiência durou um ano, com Jamie ficando praticamente no banco em todos os jogos. Parecia que a “carreira” do pequeno Jamie iria acabar antes mesmo de começar…

CONTINUA…

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte

A maldição do saber jogar futebol – parte II – A missão

Seguimos com a narrativa de Zezinho, nosso grande herói brasileiro, com a sequência imperdível de sua história. Lembrando que todos os fatos aqui descritos são verdadeiramente inventados, sendo peças de ficção, sem nenhuma relação com a vida real.

Para quem não acompanhou a primeira parte ou alguém que queira reler a aventura de Zezinho, basta clicar aqui e relembrar tudo!

Foram nove meses de muita expectativa, Zezinho e sua esposa prepararam tudo para a chegada do primeiro filho do casal. José Alberto Zidane Eto´o Júnior nasceu muito bem de saúde e a família já pôde retornar pra casa no dia seguinte.

O quarto do menino parece um cenário pós explosão de uma loja esportiva. Bolas, camisas, bandeiras, até o lençol do berço estampam a marca do Chibabambala EC, time de coração de Zezinho pai. Zezinho Júnior, ou apenas Juninho, entre choro e troca de fraldas, parece estar muito feliz nesse novo mundo que acabou de chegar.

Aos 4 anos, Juninho integra a mais nova escolinha de futsal da cidade. Desculpa, não é escolinha, é academia multifuncional especializada em desportos coletivos, como está descrito no folheto de propaganda. A academia apresenta os mais modernos métodos e equipamentos em suas aulas, e garante que, com apenas alguns anos de prática, a criança terá portas abertas em equipes de base em todo o estado, e quem sabe, no país.

Zezinho não quer esperar. Juninho frequenta a academia, mas já participa do time Sub 6 do Apiparonga, seguindo os mesmos passos do pai. Um ano depois, Juninho se destaca em todos os jogos, fazendo gols e dribles desconcertantes. E o celular de Zezinho recebe uma ligação…

“Estamos acompanhando o desenvolvimento do Juninho, mas queremos conversar com você, Zezinho. Sabemos de seu histórico como jogador, e queremos que aceite trabalhar em nosso clube, como assistente técnico, para poder passar toda essa experiência que teve na base.”

Zezinho fica muito feliz com o convite do Zakulava FC, grande rival do Apiparonga, e aceita prontamente. Claro que, pela logísitca, Juninho deixa seu clube e vai junto com o pai para o time Sub 7 do Zakulava. Zezinho fica muito feliz ao vestir a camisa de comissão técnica, e poder acompanhar os treinos do filho de dentro da quadra.

Aos 11 anos, a carreira de Juninho segue de vento em popa. Zezinho pai, após algumas desavenças com os treinadores do time, recebeu o cargo de diretor de planejamento de desenvolvimento técnico, cognitivo e administrativo e segue no clube, na prática, como um conselheiro do presidente do Zakulava. Juninho, já patrocinado por uma marca esportiva, segue quebrando recordes, sendo o principal jogador do clube, sendo no campo ou na quadra.

Zezinho está feliz porque seu filho não passará pelo que sofreu em sua infância. Juninho tem 1,74m, e com 12 anos, está bem acima da média de altura para a sua idade. Os treinos na sala de musculação, que faz desde dos 9 anos, também parecem ter surtido efeito. A grande maioria dos gols de Juninho são arrancando em velocidade e passando por cima, literalmente, dos adversários, até colocar a bola na rede. Isso fez com que o menino chegasse a participar de treinos e jogos com o time Sub 14, sempre que a escola permitia, já que os treinos da equipe mais velha são no mesmo horário das aulas. Com o pai sendo dirigente, essa liberação era facilitada já que o clube fornecia camisas e ingressos para jogos do time principal, para o diretor da escola.

No aniversário de 14 anos de Juninho, uma grande festa acontece no play do prédio, onde mora a família. O empresário do jogador, que é filho do ex-empresário de Zezinho pai, custeou tudo, inclusive levando 3 jogadores profissionais, para delírio de todos os presentes.

No dia seguinte, Juninho é chamado no clube. Já podendo assinar um contrato de formação com o Zakulava, ele escuta do clube o quão valioso ele é para a entidade, quantos títulos ele já deu ao clube, mas o plano é esperar um pouco mais para a assinatura do contrato. E a reunião é para informar que, dentro do plano de carreira, a comissão técnica quer experimentar Juninho como lateral direito.

Uma semana depois, após 29 reuniões do seu empresário com o clube, e vários posts nas redes sociais de Zezinho, dizendo que “nenhum obstáculo é intransponível!”, Juninho, ex-camisa 10, faz seu primeiro jogo na nova posição. Convencido que é uma boa, afinal “a seleção brasileira tem dificuldade para achar um, olha a brecha aí!” , o adolescente segue treinando com muito afinco.

Mas o jogo começa a ficar mais difícil para Juninho. As costumeiras arrancadas normalmente são interrompidas pelos adversários com certa facilidade, e por várias vezes, Juninho fica pra trás após dribles dos pontas que tem que marcar. As bolas paradas, que eram especialidades há 2, 3 anos atrás, não são mais de Juninho. Afinal, antigamente, a ordem era pra acertar o gol nas faltas e colocar a bola na área nos escanteios. Hoje tem que acertar o ângulo, bater no primeiro pau, e Juninho tem muita dificuldade para conseguir fazer isso.

Aos 16 anos, chega um convite para o atleta. O Chibabambala EC, time do coração de seu pai, convida Juninho para seu time Sub 17. Sem muitas chances de jogar no Apiparonga e vendo a felicidade de Zezinho, Juninho decide trocar de clube. O Chibabambala já viveu seus momentos de glória, atualmente, está na segunda divisão do estado e não joga uma competição nacional há mais de 10 anos.

Juninho é muito esforçado, mas parece que o futebol de hoje é muito difícil para ele. Quando tinha 11, 12 anos, o jogo parecia mais simples. Hoje, tem dificuldade em passar a bola, em entender os preenchimentos de espaço. Mais novo, nunca teve que se preocupar com isso. Começa a treinar como zagueiro, mas a altura vira um problema. Seus 1,74m aos 12 anos, viraram 1,78m aos 16, e o treinador o avisou que “com menos de 1,80m, não tem a menor condição de ser zagueiro…”

Aos 19 anos, Juninho conseguiu se formar no ensino médio. Depois do Chibabambala, passou por 18 clubes em 3 anos, sem conseguir se firmar em nenhum. Consegue uma vaga na faculdade de educação física, e começa o curso super animado, vislumbrando uma futura carreira dentro do futebol…

Ah, e o Zezinho?

Zezinho segue com a sua vida, a cada dia mais convencido que o mundo do futebol o boicotou mais uma vez. Mas já projeta o caminho de carreira do filho, como treinador, com a certeza que, dessa vez, o nome da família terá um espaço de destaque dentro do velho esporte bretão…

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte

A maldição do saber jogar futebol

Antes de começar, preciso explicar o título…

Num desses dias, terminei um dos melhores livros que li durante o ano. Michael Ross, um autor norte americano, escreveu “A maldição do petróleo”, onde discorre sobre os países que foram “abençoados” com essa riqueza natural em seus territórios, mas nem tudo correu como era o planejado.

Fazendo uma relação simples para o futebol, vejo uma criança com 4, 5 anos, que sempre brincou com a bola, sempre gostou disso e está lá, naquela festinha de aniversário, chutando, correndo, se divertindo jogando futebol. Então, ela começa a fazer tudo isso bem melhor do que os amiguinhos da festa, até que, normalmente um adulto, olha para as façanhas dela e dispara: “Zezinho, como você joga bem! Já pode jogar num clube, vou falar com seus pais pra te levarem!”

Pronto, é o começo do fim…

Sem ter a menor ideia do que vem pela frente, o Zezinho chega num clube, o Apiparonga FC, para a primeira aula de futsal da vida. Escrevi aula, mas chamam de treino, né? Tudo começa muito bem, outras crianças correndo pra lá e pra cá, novos amiguinhos, o treinador sempre tem uma brincadeira de pique, a criança chega em casa, mais feliz do que hiena cheia de gás hélio.

Então, temos o primeiro jogo. Uniforme novo, 200 fotos nas redes sociais, papai nem assiste o jogo ao vivo, fica no celular pra gravar tudo. O time vence quase no último lance, placar de 5 a 4, pra delírio do treinador e de toda a torcida apiparonguense. Balas e chicletes voam para a quadra, fazendo a festa das crianças e todos saem felizes. Poucos percebem que o Huguinho, um dos jogadores do time, não entrou em quadra…

Próximo treino, todos ainda felizes com a vitória no final de semana, e tudo esclarecido com os pais do Huguinho, após uma reunião com o treinador. O campeonato segue a todo vapor, mesmo depois daquele domingo de sol, 40 graus a sombra, e o Apiparonga encara 3 horas de viagem pra jogar mais uma partida.

Zezinho, já com seu perfil esportivo no Instagram, o @zezinho10efaixa, e sem o Huguinho, que foi embora para outro clube, começa uma dieta específica para jovens atletas. Os pais se livram de toda a gorroroba que Zezinho adora, e elaboram refeições balanceadas, cheias de frango grelhado e batata doce, de acordo com seus treinos. Tentando equilibrar a nova rotina, Zezinho começa a tomar suplementos de proteína, gel de carboidratos e o SuperMax300 Plus, que dá aquela energia extra, que toda criança de 6 anos precisa pra encarar o dia a dia.

Já com 9 anos, Zezinho segue com a “carreira” de vento em popa. Seu treinador pessoal grava seus treinos, que acabam servindo de inspiração para todos os seus 400 mil seguidores. No mês que vem, vai fazer a primeira viagem pra fora do estado, para jogar num campeonato. Seus pais, após passarem 3 rifas, conseguiram o dinheiro pra pagar a ida da criança, já que o Apiparonga não tem condições de arcar com as despesas.

Aos 10 anos, aconselhado por outro pai do time, a mãe do Zezinho leva ele a um médico especialista em crescimento. Tem 4 garotos no time mais altos do que ele, o que preocupou seus pais. Após pagar 450 reais na consulta, os pais do Zezinho passam na farmácia de manipulação e 800 reais depois, levam os 6 frascos que o menino vai tomar, a cada 2 semanas.

Aos 12 anos, a grande final da Liga Universal da Via Láctea está marcada! Zezinho já coleciona 91 títulos na carreira, mas está nervoso para esse jogo. A vó do agora pré-adolescente cancelou a festa pelo aniversário de 80 anos, para que toda a família pudesse estar na torcida. Apito final, título para o Apiparonga! Zezinho comemora bastante, mas seu pai está de cara emburrada na arquibancada, já que o filho jogou apenas os últimos 4 minutos e 18 segundos, cronometrados em seu relógio. Afinal, na semifinal, ele tinha jogado 9 minutos e 40. Zezinho pai vai pra casa, convencido que precisa saber o que causou essa queda de rendimento.

Enquanto os amigos do prédio de Zezinho estão caçando Pokemon pelo bairro, ele está na academia, terminando a aula de Pilates. Logo depois, irá para o trabalho funcional na quadra, para a noite, fechar o dia com mais um treino com o time na quadra do clube. Já combinando com os treinos de futebol de campo, Zezinho ganhou um abono de faltas na escola, já que estava difícil conciliar a nova rotina com os estudos. A escola, que aproveitou o jovem atleta em seus comerciais e inserções nas mídias digitais, está muito feliz com o acordo.

13 anos. Já com 7 anos de carreira, Zezinho decide trocar de clube. Seus pais, seu empresário e seu assessor para as redes sociais estão convencidos que o treinador não gosta do Zezinho. O dono da empresa que gerencia sua carreira, disse que futebol é assim mesmo. Mas, usando a sua influência, garante que tem portas abertas nos maiores clubes do país, e não deixará que o atleta saia prejudicado.

No dia do seu aniversário de 15 anos, Zezinho sai do centro cirúrgico, após realizar uma artroscopia, pra corrigir um problema no joelho. Seu médico garante que é procedimento básico, super simples, e logo logo, estará liberado para voltar aos gramados. Apesar de todo o acompanhamento e dos remédios, Zezinho segue 1 centímetro abaixo da média de altura da sua idade, o que acaba sendo bom, já que ainda no sexto ano na escola, não chama tanta atenção na sala de aula.

Mesmo com todo o esforço do seu empresário, Zezinho não consegue voltar aos gramados nos principais clubes da cidade. “Ficar 2 meses parado com essa idade, é complicado, temos outros meninos aqui que estão jogando, mais experientes.” “Na posição dele, fica complicado com esse corpo franzino.” “Ele é um jogador muito técnico, mas está faltando força, tem que ter uma carcaça pra suportar as pancadas do jogo.”, foram algumas das frases ditas para Zezinho e seu staff.

Após 2 semanas na peneira, Zezinho consegue uma vaga no Caxindiba EC, que joga a sétima divisão do campeonato estadual. Já sem empresário, o jogador de 17 anos tenta aproveitar o máximo do treino, mesmo este sendo dificultado pelo campo de terra onde o time treina, além do sol de meio dia que aparece todo dia. O espaço é emprestado por uma escola e é o único horário disponível para a prática. A parte boa é que dá pra conciliar com os estudos que acontecem a noite, para que Zezinho não perca novamente mais um ano na escola.

Aos 21 anos, Zezinho está no último ano do ensino médio, e segue com o futebol, principalmente em campeonatos de futebol de 7, onde consegue um dinheiro por partida que joga, além da caixa de cerveja que o dono do time sempre deixa pago no bar. Toda quinta-feira, publica uma lembrança de seus tempos de base no Apiparonga, para delírio de seus 96 seguidores. Vai dormir tendo a certeza que o mundo do futebol o boicotou, impedindo que tivesse uma carreira e uma vida de sucesso.

As crises de ansiedade vêm e vão e, às vezes, ficar sozinho em casa o faz sentir uma solidão enorme. Mas, aos 30 anos, tem a certeza que isso tudo vai mudar. Junto com sua esposa, estão saindo do médico onde puderam confirmar a gravidez dela. Zezinho já faz planos para o bebê, inclusive já comprou a primeira bola de futebol para colocar em seu berço…

 

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte