A regra que falta ao futebol de base

Escrever sobre outro assunto que não seja a pandemia que assola o mundo parece meio fútil, mas as medidas para conter a disseminação do vírus, acabam dando tempo que normalmente não temos, em nossas vidas comuns. Portanto, vamos seguir falando (ou escrevendo) do trabalho nas categorias de base, principalmente no futsal e futebol.

Assistindo uma das centenas de reprises esportivas hoje disponíveis, me pego vendo um jogo de tênis, do grande Gustavo Kuerten contra Marat Safin, um tenista russo, pela final de um torneio na Alemanha. A partida, decidida no quinto set, foi emocionante, cheia de altos e baixos. Por diversas vezes, o treinador de Guga, Larri Passos, era filmado na arquibancada, torcendo e sofrendo a cada ponto. E dessa imagem, veio a inspiração para o texto de hoje. Treinador na arquibancada?

Quem vem do esporte coletivo é algo que chama atenção. Em alguns desportos individuais, é algo comum. Natação e atletismo, o mesmo acontece. Mas pesquisando os motivos, é algo mais logístico do que qualquer outro motivo. Numa competição de atletismo, são diversas provas ao mesmo tempo, algumas provas com 10, 12 atletas. Imagina se temos um treinador pra cada atleta no mesmo local? Realmente fica complexo.

Mas no tênis, esse problema logístico não ocorre. Afinal, na quadra temos apenas 2 jogadores, no máximo 4, quando temos disputa de duplas. A questão é uma regra bem antiga que existe no esporte. Não só o treinador não pode ficar na quadra, como não pode se comunicar com o atleta, mesmo estando na arquibancada.

Na modalidade, existe um grande debate sobre a manutenção da tal regra. Uns contra, outros a favor, mas uma frase de Roger Rasheed, que já treinou grande tenistas como Leyton Hewitt, Gael Monfils e Jo-Wilfried Tsonga, me chamou atenção: “Compreendo que os melhores jogadores não comprem a ideia (de permitir treinadores a ficarem dentro da quadra), pois ela faria a diferença e reduziria a margem de vitória. Acho que aí está o ouro, o pacote completo de um atleta.”

Outra citação se faz importante. “Isso vai resultar em excesso de informação. Creio que muitos jogadores em ascensão já sofram de excesso de instruções. Acho que isso os faria parar de pensar por conta própria.”, disse Sascha Bajin, treinador de Naomi Osaka, campeã do US Open em 2018.

Transportando para as categorias de base. Já imaginaram, os treinadores na arquibancada? Os jogadores decidindo por conta própria, sem a ajuda externa? Ideia muito louca?

Não sei e talvez nunca saberei, já que acredito que seja um mundo que nunca será real. Mas o caso nos faz pensar. Será que nossos treinadores capacitam nossos atletas a decidir? Ou são e serão eternamente dependentes do auxílio externo, dependentes das informações que recebem da comissão técnica? Principalmente nos últimos anos, se fala muito em tomada de decisão no futebol e futsal, mas deixamos os jogadores decidirem ou eles apenas executam as ordens dadas pelos treinadores?

Eu sei, muitas perguntas e poucas respostas. Sempre acreditei que tem treinador que ajuda e treinador que atrapalha. Tem treinador que quanto mais treino, melhor o time fica e tem treinador que consegue piorar a equipe a cada prática. Mas mesmo pensando apenas nos bons exemplos, será que esses treinos tornam os atletas capazes de decidir?

E só pra deixar ainda mais claro. Não quero aqui entrar no mérito das valências a serem treinadas, metodologias de treino, nada disso, já abordamos o assunto uma vez aqui, sobre as tomadas de decisão no futebol, confira aqui. Hoje quero discutir a dependência dos jovens atletas nas informações do treinador. Estamos preocupados em formar jogadores independentes? E vou além. Queremos formar jogadores independentes?

Em rodas de bate papo de treinadores, sempre surge a ideia de não termos os pais por perto, em treinos ou em jogos. “Imagina só? Uma partida sem pai pra ficar pertubando os atletas, que maravilha que seria!” Será que nas rodas dos atletas, não existe uma frase assim: “Imagina um jogo sem treinadores? Ninguém pra ficar gritando e enchendo o saco do lado de fora!”

Como disse no início, acredito que seja uma ideia que nunca será posta em prática, mas podemos pensar sobre. Por quantas vezes, como treinadores, decidimos pelos nossos atletas nas partidas? Estamos prejudicando sua formação com isso? “Ah, mas o técnico, do lado de fora, consegue enxergar melhor o jogo e assim, decidir melhor!” Ótimo, estamos decidindo melhor e com isso, conquistando mais vitórias, certo? Mas está sendo melhor para a formação daquele atleta?

Pra terminar, acredito sempre em equilíbrio. Um treinador que controla seu time como um jogador de videogame, apertando os botões para gerar qualquer ação de seu time, pode até vencer jogos, mas deixa uma lacuna grande na formação daqueles jovens. Permitir que construam suas ideias e decisões, é dever de um bom treinador, e deve ser estimulado sempre, mesmo que isso custe algumas vitórias na trajetória. Aos treinadores de futsal e futebol de base, deixo uma mensagem. Será que vale a pena nos imaginarmos como treinadores de tênis? Será que minha equipe está preparada para jogar sem a minha ajuda?

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte

A praticidade da teoria

Podemos dividir, praticamente todos os campos de atuação profissional que existem, em conceitos teóricos e práticos. Nenhuma novidade sobre isso. Engenharia, economia, jardinagem e por aí vai, têm sua parte teórica e prática. Então, vamos entrar no assunto, dentro do mundo esportivo, especificamente do futebol e futsal.

Talvez uma grande diferença que o futebol tenha, das demais atividades, seja o jogo em si. Acaba sendo uma avaliação, por muitas vezes semanal, do trabalho tanto dos jogadores, quanto do treinador. Não vou entrar aqui se esta avaliação é fidedigna ou não, mas na prática, ela tem essa função. Então o jogo tem que ser importante para o planejamento feito e desenvolvido nas semanas prévias a ele.

Claro que, se formos falar de categorias de base, o jogo perde (ou deveria perder…) um pouco da importância, já que o grande objetivo é a formação a longo prazo do jovem em um atleta de alto rendimento. Mas mesmo assim, ele tem seu papel e deve sim, ser levado em consideração pelos envolvidos no processo. Então vamos lá, quanto do jogo está dentro do meu planejamento de treinos?

Futebol, futsal, com qualquer outro esporte, ele é prático. E caótico. Esse “caos” é gerado pelo jogo em si, adversário, arbitragem, torcida, sua própria equipe, todas combinadas, gerando esse ambiente, por muitas vezes, imprevisível. É dever do treinador buscar as soluções para destrinchar tudo isso, e durante os treinos, preparar seus atletas para esse enfrentamento.

Nesse ponto, que me questiono. Será que nós, treinadores, damos a importância que esse ponto merece? Por muitas vezes, vi apresentações espetaculares de conceitos de treinamento, com vídeos sensacionais, com gráficos muito bem feitos e, quando vamos para a quadra ou campo, vemos uma equipe bem diferente dessa apresentação. As ferramentas tecnológicas de hoje ajudam demais qualquer treinador, mas elas têm uma grande “falha”. Aceitam tudo que for escrito ali, sem reclamar.

Recentemente, temos muitos “Times de Powerpoint” por aí. Podem ser em PDF ou até em programas específicos super bem elaborados, com vídeos das manobras táticas e por aí vai. Precisamos de mais “times de quadra”, equipes práticas, que consigam chegar ao objetivo, utilizando com competência, todas as vertentes que o esporte pode dar.

Tenho certeza que, seja na prancheta, quadro tático ou no computador, o desenho feito ali terá 100% de sucesso. Seja lá qual for a jogada ensaiada feita, ou o plano coletivo de marcação, o fim da manobra será com um gol marcado a favor. Mas e na prática, será que o gol acontece sempre?

Especialmente na base, por muitas vezes, o caminho mais simples é o mais efetivo. Elaboradas movimentações para crianças de 8, 9 anos podem dar certo? Claro que sim! Depende de vários fatores e um deles é a marcação do time adversário, que também está num nível inicial. Todo treinador fica feliz quando seu time marca um gol de uma jogada de escanteio, por exemplo. Mas será que ele já se perguntou se o gol saiu por mérito na movimentação ofensiva ou por uma deficiência grande da parte defensiva, que poderia ser iludida com ou sem a manobra ensaiada?

A grande ideia é jogar da forma que eu treino ou treinar da forma que eu jogo. Esses dois eventos esportivos têm que estar ligados sempre. Lembrem que qualquer folha de caderno, documento do Word ou rabisco na prancheta, aceitam tudo que for colocado ali. Já na prática…

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte

A maldição do saber jogar futebol

Antes de começar, preciso explicar o título…

Num desses dias, terminei um dos melhores livros que li durante o ano. Michael Ross, um autor norte americano, escreveu “A maldição do petróleo”, onde discorre sobre os países que foram “abençoados” com essa riqueza natural em seus territórios, mas nem tudo correu como era o planejado.

Fazendo uma relação simples para o futebol, vejo uma criança com 4, 5 anos, que sempre brincou com a bola, sempre gostou disso e está lá, naquela festinha de aniversário, chutando, correndo, se divertindo jogando futebol. Então, ela começa a fazer tudo isso bem melhor do que os amiguinhos da festa, até que, normalmente um adulto, olha para as façanhas dela e dispara: “Zezinho, como você joga bem! Já pode jogar num clube, vou falar com seus pais pra te levarem!”

Pronto, é o começo do fim…

Sem ter a menor ideia do que vem pela frente, o Zezinho chega num clube, o Apiparonga FC, para a primeira aula de futsal da vida. Escrevi aula, mas chamam de treino, né? Tudo começa muito bem, outras crianças correndo pra lá e pra cá, novos amiguinhos, o treinador sempre tem uma brincadeira de pique, a criança chega em casa, mais feliz do que hiena cheia de gás hélio.

Então, temos o primeiro jogo. Uniforme novo, 200 fotos nas redes sociais, papai nem assiste o jogo ao vivo, fica no celular pra gravar tudo. O time vence quase no último lance, placar de 5 a 4, pra delírio do treinador e de toda a torcida apiparonguense. Balas e chicletes voam para a quadra, fazendo a festa das crianças e todos saem felizes. Poucos percebem que o Huguinho, um dos jogadores do time, não entrou em quadra…

Próximo treino, todos ainda felizes com a vitória no final de semana, e tudo esclarecido com os pais do Huguinho, após uma reunião com o treinador. O campeonato segue a todo vapor, mesmo depois daquele domingo de sol, 40 graus a sombra, e o Apiparonga encara 3 horas de viagem pra jogar mais uma partida.

Zezinho, já com seu perfil esportivo no Instagram, o @zezinho10efaixa, e sem o Huguinho, que foi embora para outro clube, começa uma dieta específica para jovens atletas. Os pais se livram de toda a gorroroba que Zezinho adora, e elaboram refeições balanceadas, cheias de frango grelhado e batata doce, de acordo com seus treinos. Tentando equilibrar a nova rotina, Zezinho começa a tomar suplementos de proteína, gel de carboidratos e o SuperMax300 Plus, que dá aquela energia extra, que toda criança de 6 anos precisa pra encarar o dia a dia.

Já com 9 anos, Zezinho segue com a “carreira” de vento em popa. Seu treinador pessoal grava seus treinos, que acabam servindo de inspiração para todos os seus 400 mil seguidores. No mês que vem, vai fazer a primeira viagem pra fora do estado, para jogar num campeonato. Seus pais, após passarem 3 rifas, conseguiram o dinheiro pra pagar a ida da criança, já que o Apiparonga não tem condições de arcar com as despesas.

Aos 10 anos, aconselhado por outro pai do time, a mãe do Zezinho leva ele a um médico especialista em crescimento. Tem 4 garotos no time mais altos do que ele, o que preocupou seus pais. Após pagar 450 reais na consulta, os pais do Zezinho passam na farmácia de manipulação e 800 reais depois, levam os 6 frascos que o menino vai tomar, a cada 2 semanas.

Aos 12 anos, a grande final da Liga Universal da Via Láctea está marcada! Zezinho já coleciona 91 títulos na carreira, mas está nervoso para esse jogo. A vó do agora pré-adolescente cancelou a festa pelo aniversário de 80 anos, para que toda a família pudesse estar na torcida. Apito final, título para o Apiparonga! Zezinho comemora bastante, mas seu pai está de cara emburrada na arquibancada, já que o filho jogou apenas os últimos 4 minutos e 18 segundos, cronometrados em seu relógio. Afinal, na semifinal, ele tinha jogado 9 minutos e 40. Zezinho pai vai pra casa, convencido que precisa saber o que causou essa queda de rendimento.

Enquanto os amigos do prédio de Zezinho estão caçando Pokemon pelo bairro, ele está na academia, terminando a aula de Pilates. Logo depois, irá para o trabalho funcional na quadra, para a noite, fechar o dia com mais um treino com o time na quadra do clube. Já combinando com os treinos de futebol de campo, Zezinho ganhou um abono de faltas na escola, já que estava difícil conciliar a nova rotina com os estudos. A escola, que aproveitou o jovem atleta em seus comerciais e inserções nas mídias digitais, está muito feliz com o acordo.

13 anos. Já com 7 anos de carreira, Zezinho decide trocar de clube. Seus pais, seu empresário e seu assessor para as redes sociais estão convencidos que o treinador não gosta do Zezinho. O dono da empresa que gerencia sua carreira, disse que futebol é assim mesmo. Mas, usando a sua influência, garante que tem portas abertas nos maiores clubes do país, e não deixará que o atleta saia prejudicado.

No dia do seu aniversário de 15 anos, Zezinho sai do centro cirúrgico, após realizar uma artroscopia, pra corrigir um problema no joelho. Seu médico garante que é procedimento básico, super simples, e logo logo, estará liberado para voltar aos gramados. Apesar de todo o acompanhamento e dos remédios, Zezinho segue 1 centímetro abaixo da média de altura da sua idade, o que acaba sendo bom, já que ainda no sexto ano na escola, não chama tanta atenção na sala de aula.

Mesmo com todo o esforço do seu empresário, Zezinho não consegue voltar aos gramados nos principais clubes da cidade. “Ficar 2 meses parado com essa idade, é complicado, temos outros meninos aqui que estão jogando, mais experientes.” “Na posição dele, fica complicado com esse corpo franzino.” “Ele é um jogador muito técnico, mas está faltando força, tem que ter uma carcaça pra suportar as pancadas do jogo.”, foram algumas das frases ditas para Zezinho e seu staff.

Após 2 semanas na peneira, Zezinho consegue uma vaga no Caxindiba EC, que joga a sétima divisão do campeonato estadual. Já sem empresário, o jogador de 17 anos tenta aproveitar o máximo do treino, mesmo este sendo dificultado pelo campo de terra onde o time treina, além do sol de meio dia que aparece todo dia. O espaço é emprestado por uma escola e é o único horário disponível para a prática. A parte boa é que dá pra conciliar com os estudos que acontecem a noite, para que Zezinho não perca novamente mais um ano na escola.

Aos 21 anos, Zezinho está no último ano do ensino médio, e segue com o futebol, principalmente em campeonatos de futebol de 7, onde consegue um dinheiro por partida que joga, além da caixa de cerveja que o dono do time sempre deixa pago no bar. Toda quinta-feira, publica uma lembrança de seus tempos de base no Apiparonga, para delírio de seus 96 seguidores. Vai dormir tendo a certeza que o mundo do futebol o boicotou, impedindo que tivesse uma carreira e uma vida de sucesso.

As crises de ansiedade vêm e vão e, às vezes, ficar sozinho em casa o faz sentir uma solidão enorme. Mas, aos 30 anos, tem a certeza que isso tudo vai mudar. Junto com sua esposa, estão saindo do médico onde puderam confirmar a gravidez dela. Zezinho já faz planos para o bebê, inclusive já comprou a primeira bola de futebol para colocar em seu berço…

 

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte

Especializamos precocemente?

Muito se discute sobre a especialização precoce dos jovens atletas, de uma maneira bem ampla, abrangendo diversos esportes. Modelos e classificações por faixas etárias são comuns, buscando sempre otimizar o processo de ensino aprendizagem, dentro das idades. Mas a questão fica: atualmente nós especializamos precocemente?

Falando de futsal, é comum iniciarmos o processo de aprendizado com 4, 5 anos de idade. Claro que, neste momento, a principal ideia do esporte é divertir e buscar a experimentação de movimentos, usando o futsal com veículo dessa formação motora mais ampla.

Gallahue (2008) construiu a sua famosa ampulheta de desenvolvimento motor e determina que, dos 2 aos 7 anos, as crianças estão na fase motora fundamental, que pode ser considerada uma ótima fase para o aprendizado de movimentos, incluindo seus 3 níveis (inicial, elementar e maduro).

Mas será que as demandas, não só competitivas, mas do esporte como um todo, inserido num contexto cultural do futsal, respeitam essa curva de aprendizado? E se temos uma resposta negativa, gera um prejuízo ao pequeno atleta?

Inseridos num contexto de formação desportiva, deixando um pouco de lado, os outros objetivos da prática esportiva, como ludicidade, prazer e melhora da saúde, a especialização precoce se torna mais presente e “comum” aos nossos olhos.

Podemos abordar por 2 caminhos essa especialização. Um deles é a própria necessidade do desporto, em buscar jovens valores, e lança-los ao alto rendimento cada vez mais novos. Se temos jogadores, sejam de futsal ou de futebol de campo, com performances excelentes, aos 17, 18 anos, podemos acreditar que, para atingir esse nível de atuação, o processo de especialização precoce foi posto em prática e deu certo!

Um outro caminho que acelera precocemente o processo de ensino aprendizagem, é o objetivo de buscar vitórias, durante a construção, que possam prejudicar essa formação. Buscar vitórias e competir, por si só, não é um malefício, mas será, se essa busca prejudica uma boa caminhada de aprendizagem.

Saindo um pouco do futsal, podemos ver nos esportes olímpicos, a presença de diversos atletas, no mais alto nível, competindo aos 15, 16 anos. Na natação, ginástica artística e até no atletismo, temos diversos exemplos de campeões e campeãs olímpicos em idades abaixo dos 21 anos, o que indica a presença dessa especialização precoce, fundamental para que esse atleta chegasse a aquele resultado desportivo.

Podemos seguir num caminho onde, tratando-se de pequenos jovens atletas, que estão num processo de formação desportiva, visando atingir um alto nível e por consequência, uma carreira profissional no esporte, esses atletas possuem características físicas diferenciadas dos demais, portanto, as regras e tabelas usadas para a população em geral, não se aplicam a eles.

É uma linha de pensamento um tanto quanto ortodoxa, mas parte de uma premissa que parece bem fundamentada. Se temos crianças, que demonstram uma capacidade de executar algum esporte, melhor do que a grande maioria, e por isso, são convidadas a buscar uma formação esportiva mais especializada, temos uma indicação de que aquele grupo de atletas, teoricamente, tem condições de que esse aprendizado esportivo seja mais aprofundado, e em diversas vezes, acima do que é indicado, pelos estudos de aprendizagem motora e afins.

A todo momento, também temos que levar em consideração que o atleta não é só um elemento físico. Aspectos cognitivos e psicológicos, principalmente, possuem uma relevância gigantesca na formação dessa criança. Portanto, qualquer elaboração de metodologia nos trabalhos de base do futsal, e do esporte em geral, devem ser pensados, juntamente com a parte mental, que também está em formação.

Atualmente, posso afirmar que, sem um planejamento diferenciado do usual, onde seja crucial acelerar diversas etapas do processo de formação, não conseguimos entregar um atleta ao alto nível, contemplando as demandas do esporte hoje em dia. E tudo isso é possível, sem trazer prejuízos para esse jovem atleta em formação.

Chegamos ao fim, trazendo talvez a palavra mais importante desse texto: equilíbrio.

Sem ele, qualquer processo de formação desportiva, por mais bem elaborado que tenha sido, terá efeitos negativos nesses atletas. Um dos ditados mais antigos que ouvimos é que “muita água também mata a planta.” Projeto bem fundamentado, coerente com a faixa etária, mas sem deixar de se adequar ao grupo de atletas que está participando, atendendo as demandas competitivas sem exageros e criando um ambiente saudável para todos os envolvidos. Com tudo isso funcionando na prática, tenho certeza que a formação desportiva, na busca de atletas de alto nível terá sucesso.

 

 

Autor: Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte