A maldição do saber jogar futebol

Antes de começar, preciso explicar o título…

Num desses dias, terminei um dos melhores livros que li durante o ano. Michael Ross, um autor norte americano, escreveu “A maldição do petróleo”, onde discorre sobre os países que foram “abençoados” com essa riqueza natural em seus territórios, mas nem tudo correu como era o planejado.

Fazendo uma relação simples para o futebol, vejo uma criança com 4, 5 anos, que sempre brincou com a bola, sempre gostou disso e está lá, naquela festinha de aniversário, chutando, correndo, se divertindo jogando futebol. Então, ela começa a fazer tudo isso bem melhor do que os amiguinhos da festa, até que, normalmente um adulto, olha para as façanhas dela e dispara: “Zezinho, como você joga bem! Já pode jogar num clube, vou falar com seus pais pra te levarem!”

Pronto, é o começo do fim…

Sem ter a menor ideia do que vem pela frente, o Zezinho chega num clube, o Apiparonga FC, para a primeira aula de futsal da vida. Escrevi aula, mas chamam de treino, né? Tudo começa muito bem, outras crianças correndo pra lá e pra cá, novos amiguinhos, o treinador sempre tem uma brincadeira de pique, a criança chega em casa, mais feliz do que hiena cheia de gás hélio.

Então, temos o primeiro jogo. Uniforme novo, 200 fotos nas redes sociais, papai nem assiste o jogo ao vivo, fica no celular pra gravar tudo. O time vence quase no último lance, placar de 5 a 4, pra delírio do treinador e de toda a torcida apiparonguense. Balas e chicletes voam para a quadra, fazendo a festa das crianças e todos saem felizes. Poucos percebem que o Huguinho, um dos jogadores do time, não entrou em quadra…

Próximo treino, todos ainda felizes com a vitória no final de semana, e tudo esclarecido com os pais do Huguinho, após uma reunião com o treinador. O campeonato segue a todo vapor, mesmo depois daquele domingo de sol, 40 graus a sombra, e o Apiparonga encara 3 horas de viagem pra jogar mais uma partida.

Zezinho, já com seu perfil esportivo no Instagram, o @zezinho10efaixa, e sem o Huguinho, que foi embora para outro clube, começa uma dieta específica para jovens atletas. Os pais se livram de toda a gorroroba que Zezinho adora, e elaboram refeições balanceadas, cheias de frango grelhado e batata doce, de acordo com seus treinos. Tentando equilibrar a nova rotina, Zezinho começa a tomar suplementos de proteína, gel de carboidratos e o SuperMax300 Plus, que dá aquela energia extra, que toda criança de 6 anos precisa pra encarar o dia a dia.

Já com 9 anos, Zezinho segue com a “carreira” de vento em popa. Seu treinador pessoal grava seus treinos, que acabam servindo de inspiração para todos os seus 400 mil seguidores. No mês que vem, vai fazer a primeira viagem pra fora do estado, para jogar num campeonato. Seus pais, após passarem 3 rifas, conseguiram o dinheiro pra pagar a ida da criança, já que o Apiparonga não tem condições de arcar com as despesas.

Aos 10 anos, aconselhado por outro pai do time, a mãe do Zezinho leva ele a um médico especialista em crescimento. Tem 4 garotos no time mais altos do que ele, o que preocupou seus pais. Após pagar 450 reais na consulta, os pais do Zezinho passam na farmácia de manipulação e 800 reais depois, levam os 6 frascos que o menino vai tomar, a cada 2 semanas.

Aos 12 anos, a grande final da Liga Universal da Via Láctea está marcada! Zezinho já coleciona 91 títulos na carreira, mas está nervoso para esse jogo. A vó do agora pré-adolescente cancelou a festa pelo aniversário de 80 anos, para que toda a família pudesse estar na torcida. Apito final, título para o Apiparonga! Zezinho comemora bastante, mas seu pai está de cara emburrada na arquibancada, já que o filho jogou apenas os últimos 4 minutos e 18 segundos, cronometrados em seu relógio. Afinal, na semifinal, ele tinha jogado 9 minutos e 40. Zezinho pai vai pra casa, convencido que precisa saber o que causou essa queda de rendimento.

Enquanto os amigos do prédio de Zezinho estão caçando Pokemon pelo bairro, ele está na academia, terminando a aula de Pilates. Logo depois, irá para o trabalho funcional na quadra, para a noite, fechar o dia com mais um treino com o time na quadra do clube. Já combinando com os treinos de futebol de campo, Zezinho ganhou um abono de faltas na escola, já que estava difícil conciliar a nova rotina com os estudos. A escola, que aproveitou o jovem atleta em seus comerciais e inserções nas mídias digitais, está muito feliz com o acordo.

13 anos. Já com 7 anos de carreira, Zezinho decide trocar de clube. Seus pais, seu empresário e seu assessor para as redes sociais estão convencidos que o treinador não gosta do Zezinho. O dono da empresa que gerencia sua carreira, disse que futebol é assim mesmo. Mas, usando a sua influência, garante que tem portas abertas nos maiores clubes do país, e não deixará que o atleta saia prejudicado.

No dia do seu aniversário de 15 anos, Zezinho sai do centro cirúrgico, após realizar uma artroscopia, pra corrigir um problema no joelho. Seu médico garante que é procedimento básico, super simples, e logo logo, estará liberado para voltar aos gramados. Apesar de todo o acompanhamento e dos remédios, Zezinho segue 1 centímetro abaixo da média de altura da sua idade, o que acaba sendo bom, já que ainda no sexto ano na escola, não chama tanta atenção na sala de aula.

Mesmo com todo o esforço do seu empresário, Zezinho não consegue voltar aos gramados nos principais clubes da cidade. “Ficar 2 meses parado com essa idade, é complicado, temos outros meninos aqui que estão jogando, mais experientes.” “Na posição dele, fica complicado com esse corpo franzino.” “Ele é um jogador muito técnico, mas está faltando força, tem que ter uma carcaça pra suportar as pancadas do jogo.”, foram algumas das frases ditas para Zezinho e seu staff.

Após 2 semanas na peneira, Zezinho consegue uma vaga no Caxindiba EC, que joga a sétima divisão do campeonato estadual. Já sem empresário, o jogador de 17 anos tenta aproveitar o máximo do treino, mesmo este sendo dificultado pelo campo de terra onde o time treina, além do sol de meio dia que aparece todo dia. O espaço é emprestado por uma escola e é o único horário disponível para a prática. A parte boa é que dá pra conciliar com os estudos que acontecem a noite, para que Zezinho não perca novamente mais um ano na escola.

Aos 21 anos, Zezinho está no último ano do ensino médio, e segue com o futebol, principalmente em campeonatos de futebol de 7, onde consegue um dinheiro por partida que joga, além da caixa de cerveja que o dono do time sempre deixa pago no bar. Toda quinta-feira, publica uma lembrança de seus tempos de base no Apiparonga, para delírio de seus 96 seguidores. Vai dormir tendo a certeza que o mundo do futebol o boicotou, impedindo que tivesse uma carreira e uma vida de sucesso.

As crises de ansiedade vêm e vão e, às vezes, ficar sozinho em casa o faz sentir uma solidão enorme. Mas, aos 30 anos, tem a certeza que isso tudo vai mudar. Junto com sua esposa, estão saindo do médico onde puderam confirmar a gravidez dela. Zezinho já faz planos para o bebê, inclusive já comprou a primeira bola de futebol para colocar em seu berço…

 

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte

O mês de nascimento e o futebol de base no Brasil

A cada dia que passa, o futebol recebe ainda mais novidades tecnológicas e educacionais, para que tenhamos cada vez mais estudos sobre o esporte e assim, melhorar seus treinos e jogos. Ao longo desse passar dos anos, outro aspecto pouco discutido também sofreu mudanças, e podemos chama-lo de perfil de jogador.

A definição de perfil no dicionário diz: “contorno gráfico de uma figura, de um objeto, visto apenas por um dos lados.” Dentro do futebol, acredito que não cabe de forma literal, mas podemos aproveitar bastante esse conceito dentro da esfera esportiva. Podemos entender que esse contorno de uma figura, seja a representação física desse atleta, um “modelo ideal” de atleta de futebol.

Será que em 30, 40 anos esse perfil sofreu alguma mudança? Se pensarmos que o futebol passou por diversas mudanças nesse período, fica claro que uma delas seja esse perfil. Temos como ponto comum que o treinamento contribuiu e contribui para essa transformação, mas se resume apenas a treinos mais modernos? Ou o processo de captação e seleção de atletas também se inclui nessa mudança?

Trazemos outro termo ao debate. Idade relativa. As categorias de base do futebol são organizadas e regulamentadas usando o ano-calendário como base, de janeiro a dezembro, quando falamos de Brasil. Então temos atletas com quase 1 ano de diferença entre seus nascimentos, mas agrupados numa mesma categoria, já que nasceram no mesmo ano. Essa diferença chamamos de idade relativa.

Como estudamos esse fenômeno? Usando como fonte os sites da FIFA e da CBF, tabelamos todos os jogadores convocados para as seleções brasileiras sub 17, sub 20 e adulta, que disputaram os campeonatos mundiais organizados pela FIFA, separando-os em quatro grupos:
– Nascidos em janeiro a março
– Nascidos em abril a junho
– Nascidos em julho a setembro
– Nascidos em outubro a dezembro

Falando de seleção principal, começamos nosso estudo a partir do elenco de 1950 até a última copa, em 2018. Levantamos os dados das 18 convocações e dividimos todos os jogadores nas 4 faixas descritas acima, de acordo com a data de nascimento. Fica claro uma diferença entre os períodos, mas dentro de uma margem pequena. De janeiro a março, temos 28,68% dos convocados, sendo este o maior percentual. De abril a junho, são 27,68%, de julho a setembro, 24,69% e o último período, de outubro a dezembro, apresentou o menor valor, com 18,95%.

Quando analisamos as categorias sub 20 e sub 17, fica bem claro uma grande diferença nesses valores. O primeiro mundial sub 20 organizado pela FIFA, aconteceu em 1977, desde então, 32,55% dos jogadores convocados nasceram entre janeiro e março. Quando olhamos para a seleção Sub 17, essa diferença fica ainda mais clara. Foram 15 participações brasileiras em mundiais, desde 1985, e dos 289 atletas convocados, 43,6% são nascidos no primeiro trimestre do ano, 15% a mais do que vimos na seleção principal.

Olhando mais de perto a seleção sub 17, podemos identificar uma tendência, com o passar dos anos. Agrupando as sete convocações nos mundiais da categoria, de 1985 até 1999, o percentual de nascidos no primeiro trimestre é de 34,13%, menor do que a média total. De 2001 até 2009, esse valor sobe para 48% e nas últimas três Copas do Mundo Sub 17 (2011, 2013 e 2015), chegamos a incríveis 55,56% de atletas convocados, que nasceram até o dia 31 de março. O último título brasileiro na competição aconteceu em 2003.

No sub 20, existe um maior valor visto no primeiro trimestre, mas mais próximo ao que podemos ver na seleção principal. Entre 2001 e 2015 (7 participações em mundiais, com 4 finais e 1 título), vimos que 34,27% dos convocados, nasceram entre janeiro e março. Talvez influenciados pelos números do Sub 17, o elenco sub 20 de 2015, último mundial, tivemos 47,62% de atletas no primeiro trimestre.

Escutamos sempre que as categorias de base têm como função principal, a formação de atletas para o nível profissional. E acreditamos muito nisso. Nas convocações dos mundiais de 2011 e 2013 no Sub 17, não tivemos nenhum atleta nascido no último trimestre (outubro a dezembro). Podemos dizer então que, jogadores que hoje, em 2019, têm entre 23 e 25 anos e nasceram nesse trimestre em questão, podem chegar a seleção principal, mas não representaram o Brasil em um mundial na categoria sub 17. Da mesma forma que, diversos atletas que estiveram presentes em uma competição mundial de base, não chegarão a jogar um mundial na seleção principal.

Claro que as razões desse fenômeno carecem de muitos mais estudos sobre o tema. A última convocação da seleção Sub 17, que participará de mais um mundial este ano, com o Brasil como sede, foi feita em setembro, com 24 atletas. 13 deles nasceram no primeiro trimestre, 54,17% da lista. Somando o segundo trimestre, são mais 5 atletas, então temos 18 dos 24 convocados, nascidos entre janeiro e junho, incríveis 75% do total.

Teoricamente, um atleta nascido em janeiro tem vantagem sobre outro, nascido em dezembro do mesmo ano. Com 11 meses a frente, esse atleta pode ser mais desenvolvido fisicamente e cognitivamente, possibilitando uma melhor performance no futebol, por exemplo.

Algumas ações já foram discutidas pelas entidades do esporte e por estudiosos do futebol, como dividir o ano de nascimento em 2, separando nascidos no primeiro e segundo semestre nas competições. Seria como ter um torneio para nascidos em 2007.1 (janeiro a junho) e outro 2007.2 (julho a dezembro). Outra ideia é que o atleta mude de categoria apenas quando fizesse aniversário. Nesse modelo, um atleta de dezembro de 2008, seria sub 11 apenas no último mês de 2019, e teria jogado no Sub 10 praticamente o ano todo.

Se temos a maioria dos atletas, nas seleções de base do Brasil, nascidos entre janeiro e março e a causa disso é uma predileção por jogadores mais desenvolvidos fisicamente do que outros, não podemos afirmar. Também podemos discutir que, se isso acontece na seleção, será uma consequência do que vemos nos clubes, que captam, treinam e avaliam esses atletas?

Outra hipótese é que, os clubes selecionam esses atletas nascidos no primeiro trimestre, para atender as demandas competitivas que temos hoje. Então se temos torneios e competições que realçam o desenvolvimento físico, ao invés do técnico e tático, será que esse modelo competitivo é o ideal para a formação de atletas?

Hoje, pelos números que foram mostrados, podemos afirmar que, estatisticamente, duas crianças que estão em algum clube de futebol, dentro das categorias de base, uma nascida em janeiro e outra em dezembro, não têm as mesmas chances de chegarem a uma seleção de base brasileira. Precisamos investigar as razões. E rápido.

 

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte

Fui campeão no mirim. E aí?

Um dos debates constantes quando falamos de categorias de base, seja do futebol ou de qualquer outro esporte, é a questão da competição. Não quero aqui entrar no mérito de jogar ou não jogar, gostaria de abordar outro aspecto sobre o tema. O resultado do jogo ou competição, vale de alguma coisa?

Duas semanas atrás, Ray Allen, bicampeão da NBA, já aposentado, postou um vídeo de seus dois filhos, numa disputa de arremessos de basquete. Logo abaixo do vídeo, escreveu o seguinte texto: “Perder é tão importante quando se é uma criança. Adoro ve-los perder, porque isso faz com que eles tentem mais, lutem mais, queiram treinar ainda mais.”

Centenas (para não dizer milhares) de crianças e adolescentes aparecem nas redes sociais, com medalhas e troféus de centenas (para não dizer milhares) de torneios esportivos, durante todo o ano. Belas fotos nas redes sociais, egos inflados, comentários positivos, são as consequências dessas fotos. Mas, e ganho real, será que aconteceu?

Henrique Almeida, atacante brasileiro, foi campeão mundial sub 20 com a seleção brasileira em 2011, sendo eleito o melhor jogador da competição e artilheiro do torneio, com 5 gols. Na época, jogava no São Paulo FC e passou por uma dezena de clubes, no Brasil, Portugal, Espanha e Turquia. Atualmente, joga na série A do Brasileirão, pela Chapecoense. Podemos dizer que ele deu certo? Claro! Com 27 anos, virou jogador profissional de futebol. Mas será que os resultados na base geraram uma expectativa mais alta?

“Eu preciso ter uma sequência de jogos. A paciência comigo não é a mesma do que com os outros jogadores, a cobrança é muito maior, tenho obrigação de fazer gol todo jogo. Se um dia tiver uma sequência, vou conseguir ir bem e fazer gols.”, disse Henrique, em 2015, na sua apresentação no Coritiba.

Costumamos ouvir e ler, que precisamos construir gerações vencedoras. Mas ganhar títulos na base definem gerações vencedoras? Muito se fala sobre a geração de nascidos em 1970/1971 do Flamengo, que venceu a Copa São Paulo de Juniores em 1990. Buscando na história, seguem diversos títulos da mesma geração nas categorias infantil e juvenil. Mas o conceito de geração vencedora é usado por outro tipo de vitória…

Júnior Baiano disputou uma Copa do Mundo, Marcelinho Carioca e Paulo Nunes foram campeões da Libertadores da América por outras equipes. Piá, Nélio e Marquinhos estiveram no elenco rubro-negro campeão Brasileiro de 1992. Djalminha brilhou durante quase uma década em campos da Europa. Eles venceram dentro da profissão, jogador de futebol. Será que terem sido campeões no infantil influenciou alguma coisa?

Perguntando para profissionais da área, acredito que a grande maioria irá concordar que a competição nas categorias de base não pode ser avaliada com o mesmo grau de importância do que no esporte profissional. Mas com que grau iremos avaliar? Ou se, efetivamente, vamos avaliar?

Culturalmente, a questão do vencer, seja no esporte ou fora dele, sempre foi muito forte na vida da maioria das pessoas. Vencendo, sou bem sucedido, perdendo, sou um fracasso. No esporte, e o futebol é um retrato gigantesco disso, não é diferente. Mas se a minha vitória é formar um atleta para o alto rendimento, é melhor que ele ganhe ou perca jogos no processo? Ou o resultado faz alguma diferença?

Para o atleta em formação, podemos discutir a importância de vencer na base. Mas para o profissional que trabalha na base, será que a relação títulos – crescimento na carreira, é mais clara? E será que ela é a maneira mais correta de avaliar um profissional? Se alguém respondeu que não, se nem para a comissão técnica, o resultado é balizador de avaliação fidedigna, por que será para uma criança de 12 anos?

Não quero aqui renegar por completo o resultado de um jogo ou campeonato, na formação de um jovem atleta. Acredito que isso seja impossível. Mas, a cada dia que passa, tenho a certeza que o resultado importa cada vez menos. E que se temos um pensamento e planejamento a longo prazo (como tem que ser feito para a formação de um atleta, que dura mais de 10 anos), esse resultado importa muito pouco.

Ah, mas a cada ano, temos diversos jogadores de futebol indo para os grande centros europeus, valendo quantias cada vez maiores! Sim! E me arrisco a dizer que, se fizéssemos o processo de formação mais pensado e planejado, teríamos muito mais jogadores, gerando muito, muito mais dinheiro.

 

 

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte

O treinador além das quatro linhas

Ano novo, vida nova! Ou pelo menos é assim que diz o ditado popular. Abrindo os trabalhos do Instituto Pensando Esporte em 2019, trazemos em nosso blog, o primeiro texto do ano. Confira!

As funções de um treinador estão claras para a grande maioria das pessoas, estejam elas dentro ou fora do ambiente esportivo. Dar treinos, construir a estratégia da equipe, comandá-la durante a partida são algumas delas e sempre têm a atenção dos profissionais, diariamente. Mas será que o papel do treinador se resume a isso dentro das quatro linhas da quadra ou campo?

Especialmente na formação dos jovens atletas, o papel do treinador vai muito além da rotina de treinos e jogos. Sejam crianças de 7, 8 anos indo até os adolescentes, o comandante da equipe é visto com respeito e admiração por esses meninos e meninas. Sempre? Talvez não, mas sem dúvida, na grande maioria das vezes, o treinador é a referência esportiva do jovem atleta.

Com isso definido, cabe ao profissional, seja lá em qual nível de categoria de base que ele esteja, assumir esse papel e atuar conforme essa necessidade. É difícil? Sem dúvida! Mas essa atuação além do básico, poderá ser o diferencial para esse treinador, não só pensando em plano de carreira, mas na montagem e desenvolvimento da equipe durante a temporada.

Nesse momento entram dois aspectos cruciais. Primeiro, é a formação desse profissional em outras competências além da questão técnica do esporte. Se esse treinador carece de conhecimento em áreas, por exemplo da psicologia, pedagogia, sociologia, poderá ter muita dificuldade. Ainda sobre isso, existem diversos treinadores, com formação superior, sabedores da grande maioria desses conceitos que, no momento que a bola rola, esquecem completamente de tudo isso, não colocando em prática esses ensinamentos.

O outro ponto chave desse trabalho fora das quatro linhas é o posicionamento do responsável do atleta em toda essa engenharia. Ele pode ser um veículo importante para “dar eco” ao treinador, perante seu filho(a), ajudando todo o processo ou ser um dificultador para a criança, para a comissão técnica, para o clube e para ele mesmo.

Uma vez ouvi de um treinador de futsal que não tinha a paciência necessária para trabalhar com crianças.
Mas ele trabalhava!
Acredito eu que, esse trabalho, era feito com muita dificuldade e com certeza, deixava a desejar em alguns pontos. Ainda escuto algumas frases dessas e normalmente, quando alguém quer saber a minha opinião, respondo assim: “Se não tem paciência para trabalhar com as crianças, busque outra função para a sua vida.”

Concluindo, deixo a mensagem aos treinadores que, busquem sempre seu desenvolvimento olhando para as questões técnicas e táticas do jogo, métodos de treinamento e estratégia, tudo isso é fundamental. Mas não deixem de lado todos os outros conceitos que fazem parte de uma formação esportiva ideal. Estejam antenados com outras áreas do conhecimento, que podem ser fundamentais para o desenvolvimento dos atletas e seu, como profissional.

Busquem saber a rotina de cada jovem atleta, como está a vida dessa criança em casa, na escola, na área onde mora. Talvez converse sobre assuntos que não sejam posse de bola, marcar gols, defender…

Feliz 2019 a todos!!

 

 

Autor: Rodrigo Nunes
Coordenador técnico das categorias de base do C.R. Flamengo
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte