O curioso caso de Jamie Lawrence e a formação no futebol – Parte II

Voltamos com a segunda e última parte da saga de Jamie Lawrence, e todo o processo de formação dele como um jogador de futebol até a sua profissionalização. Para quem não conhece o início da história, acesse a primeira parte da narrativa, clicando aqui.

Esse texto é a segunda parte de um texto original do site inglês The Correspondent, escrito pelo jornalista Michiel De Hoog. É uma história verídica contada a partir do ponto de vista do próprio Jamie e de seu pai, Steve Lawrence. Confira a parte II!

 

Em 2007, um acontecimento mudou os rumos do pequeno Jamie Lawrence e de sua família. Em anos anteriores, a mãe de Jamie, Lynne, trabalhou por um tempo com uma Escola Internacional, localizada em Amsterdã. Naquele ano, recebeu um convite para uma vaga na sede da escola, o que necessitaria de uma mudança familiar da Inglaterra para a Holanda. Lynne aceitou a vaga e Steve começou a mandar e-mails para diversos clubes holandeses pedindo uma oportunidade para que Jamie pudesse treinar.

Demorou um ano, mas em abril de 2008, Rene Moonen, diretor das categorias de base do HFC Haarlem, respondeu a Steve e Jamie foi aprovado para integrar ao time de base. Steve tinha um “motivo”, além do talento do filho. Na Holanda, Jamie era quatro meses mais velho do que na Inglaterra, já que lá, era usado o ano calendário, indo de janeiro a dezembro, diferente do modelo inglês, que reunia os jogadores de setembro a agosto. 

Jamie fez sucesso nas equipes do HFC Haarlem e era o zagueiro titular do time sub 17. Chamou tanta atenção que o Ajax, maior clube do país, convidou-o para integrar sua equipe sub 18, ao final da temporada. Cinco anos depois de ter sido dispensado do Arsenal, Jamie Lawrence estava num outro gigante europeu.

Com esse novo status do filho, Steve voltou a se comunicar com a federação inglesa de futebol, avisando que tinha um jogador inglês se destacando na Holanda, para que ele pudesse ser lembrado para as seleções de base do país. Por parte da mãe, Jamie também tinha nacionalidade galesa e Steve mandou o mesmo e-mail para a federação do País de Gales. Ambos e-mails também seguem sem resposta até agora.

No sub 19, surgiram alguns problemas, como uma contusão muscular sofrida por Jamie e até um problema no coração, que o tirou do campo durante vários meses. Além das lesões, o fantasma da idade relativa voltava a assombrar a família Lawrence. Steve fez um levantamento com as equipes Sub 18 e sub 19 do Ajax e dos 37 jogadores analisados, apenas cinco tinham nascido entre agosto e dezembro, já incluindo Jamie. 

Em 2010, outro clube holandês, o AZ Alkmaar, demonstrou interesse em Jamie. O jogador estava chegando naquele ponto de não pertencer as categorias de base e buscar um contrato profissional. Após uma reunião com Olde Riekerink, diretor da base do Ajax, Steve e Jamie decidiram permanecer no Ajax, já que foi garantido que o clube iria cuidar com todo o carinho do atleta.

O carinho durou 4 meses.

O treinador do time profissional do Ajax, Martin Jol, trocou o clube pelo inglês Fulham e Frank de Boer foi promovido do time júnior para o elenco principal. Com isso, Dick de Groot assumiu a antiga vaga da De Boer e logo dispensou Jamie. 

Sem time para o filho, Steve voltou ao trabalho. Já como jogador profissional, Jamie jogou uma temporada no Sparta e duas no RKC Waalwijk, ambos clubes holandeses, mas sem chegar a jogar um jogo da liga nacional. Já em paralelo, Jamie começou a cursar gerência esportiva na Academia Johan Cruyff, já imaginando outra alternativa de carreira, mas ainda dentro do futebol.

Chegamos no verão de 2014, Jamie fazendo 23 anos, e a cada dia que passa, a carreira de Jamie parece perto do fim.

Em junho de 2015, Steve consegue um teste para Jamie no AS Trencin, clube da Eslováquia. Numa reunião com o dono do clube, Tscheu La Ling, foi passado para a família Lawrence qual era o objetivo do Trencin. “Nós contratamos jogadores com defeitos, consertamos-os e vendemos por um preço mais alto.” Simples assim.

Jamie topou a ideia e se tornou logo um dos destaques do time. Com muita paciência, a grande oportunidade chegou em 2018. Após ter sido campeão nacional na temporada passada, o Trencin se qualificou para disputar uma vaga para a fase de grupos da Liga Europa e iria enfrentar o gigante holandês Feynoord, em um mata mata. Após um empate na primeira partida, um sonoro 4 a 0 a favor do Trencin colocou o time e Jamie na grande vitrine do futebol europeu.

Duas semanas depois, Jamie assinava com o Anderlecht, da Bélgica.

Steve seguiu com os e-mails para as federações nacionais, promovendo Jamie. Até que Mark Evans, secretário internacional da federação do País de Gales, leu, gostou e chamou a atenção de Albert Stuivenberg, auxiliar técnico de Ryan Giggs, na seleção galesa. Após algumas visitas a jogos do Anderlecht, J.Lawrence surgiu na lista de convocados em novembro de 2018, ao lado de Gareth Bale e Aaron Ramsey, maiores estrelas da seleção naquele momento.

Jamie praticou o hino em frente ao espelho por diversas vezes. Estava tenso, e ficou mais ainda em conhecer pessoalmente Giggs, uma lenda do Manchester United e de toda uma nação. O maior ídolo na infância de Jamie foi o atacante francês Eric Cantona, que junto com Giggs, ganharam inúmeros títulos pelo United. 

Chegando no hotel da seleção, Jamie estava quase entrando no seu quarto, quando viu Giggs no corredor:
– Jamie, vamos no restaurante bater um papo.
– Ok! – e ambos conversaram sobre futebol, a infância de Jamie, seus hobbies…

Sim, Jamie Lawrence era jogador de futebol profissional e membro da seleção de País de Gales.

 

Até hoje, Jamie jogou seis jogos pela seleção de País de Gales, e estava bem contado para integrar o elenco que iria participar da Euro 2020, adiada por conta da pandemia do coronavírus. Em 2019, foi emprestado pelo Anderlecht para o St. Pauli, time que joga a segunda divisão alemã. Steve segue mandando e-mails sempre que pode mas ainda não conseguiu entender como essa tal de idade relativa causa tanto mal para milhares de crianças por todo o mundo.

 

 

O curioso caso de Jamie Lawrence e a formação no futebol – Parte I

O texto de hoje é o relato real feito no site inglês The Correspondent, muito bem escrito pelo jornalista holandês Michiel De Hoog. Ele traz a saga de Jamie Lawrence, um jogador profissional de futebol, que também representa a seleção de País de Gales. A história relata todo o processo feito por Jamie e seu pai, pelas mais diversas categorias e clubes de futebol, de vários países.

O texto original é bem longo, então separamos a história em 2 partes, e trazemos a primeira para todos vocês. Deixo aqui uma opinião bem pessoal que, com todos os estudos que temos hoje, a gama de informações a disposição de todos os profissionais das categorias de base, a história de Jamie Lawrence é um exemplo da realidade atual, brasileira ou internacional, de como ainda temos um longo caminho a percorrer.

 

“O Curioso caso do futebol internacional que ninguém ficou sabendo (porque ele nasceu no mês errado)”

 

Podemos considerar que foi a convocação mais estranha para uma seleção nacional na história do futebol.

Até o dia que Jamie Lawrence foi convocado para a seleção de País de Gales, ninguém no país o conhecia e ele não conhecia ninguém no país. Jamie Lawrence não nasceu no País de Gales, nunca jogou lá e não tem família no país. Ele não fala a língua oficial, nunca jogou nas seleções de base do País de Gales e nunca teve um contato com a Federação de futebol do país.

Jamie Lawrence nunca esteve no País de Gales.

Era algo estranho, ainda mais para um país sem muitas opções de jogadores para serem convocados. Toda federação deseja manter um acompanhamento de todos os seus atletas, ainda mais uma que deseja enfrentar as grandes potências mundiais do futebol. Ainda mais se falarmos sobre um zagueiro canhoto, algo que sempre está em falta no esporte. E mesmo assim, ninguém sabia quem era Jamie Lawrence.

Na tarde do dia 5 de novembro de 2018, Ryan Giggs, ex-jogador do Manchester United e técnico da seleção do País de Gales, anunciou sua lista de convocados para uma partida decisiva contra a Dinamarca, válida pela Liga das Nações. A folha distribuída aos jornalistas presentes apresentava um J.Lawrence. Os repórteres começaram a conversar entre si e a conclusão era que tivemos um erro de digitação, o correto era T.Lawrence, atacante do Derby County, time da segunda divisão inglesa. Mas na lista estava lá, T.Lawrence também. Então quem era o J?

O Google nos respondeu que J.Lawrence era um zagueiro do clube belga Anderlecht. E era só isso.

O comentarista da BBC, Rob Phillips, começou a entrevista da forma tradicional, perguntando sobre a estrela do time, Gareth Bale, craque do Real Madri. Lá pela quarta, quinta pergunta, Phillips disparou:
– “Você fez todos aqui pesquisarem o google sobre James Lawrence, do Anderlecht. Pode nos dizer como você chegou até ele?
– “Ficamos sabendo dele nos últimos seis meses. Ele tinha ficado perdido no processo.”, respondeu Giggs.
– “E como ficou sabendo dele
?”
– “Fui avisado por um funcionário da federação do País de Gales.”, completou Giggs.

Seguimos vasculhando o google, que não nos deu muita informação. Uma entrevista rápida no site do Anderlecht, algumas matérias em eslovaco, quando Jamie jogava no AS Trencin e muitas outras sobre outros Jamie Lawrence muito mais famosos. Na época, os torcedores chegaram a criar uma hashtag famosa no Twitter, #jamielawrencefacts , na busca de maiores informações.

Ao mesmo tempo, em Bruxelas, Jamie Lawrence chorava de emoção por sua primeira convocação à seleção nacional. Em Amsterdã, Steve Lawrence, pai de Jamie também chorava de emoção, e finalmente podia confirmar o que sempre acreditou. O excepcional talento do filho para jogar futebol.

E essa história começou quando Jamie tinha 3 anos. Steve o via jogar contra meninos mais velhos, e ter sucesso. Quando Jamie tinha 6 anos, já jogava contra e vencia jogos contra meninos de 9 anos. Então aos 7 anos, Jamie se tornou um atleta da Arsenal Advanced Academy, uma escola particular de futebol, onde os olheiros do Arsenal costumavam captar jovens jogadores para o clube.

Na primavera de 2000, Steve estava vendo um treino do filho, quando um outro homem chegou a seu lado e teve uma conversa que mudou pra sempre a vida de Lawrence pai.

– Aquele é o seu filho?
– Sim.
– Bom jogador, talentoso. Quando ele nasceu?
– 22 de agosto.
– Ah, que pena…
– 
Oi?
– 22 de agostoEle não vai conseguir se tornar um jogador profissional de futebol.

Sem entender muito bem aquele papo, Steve chegou em casa e começou a procurar informações sobre aquele tema. Com o google ainda engatinhando, teve dificuldade na busca, mas depois de muito tempo, achou um artigo: “Sucesso no hóquei no gelo e sua data de nascimento. O efeito da idade relativa.”

O artigo trazia a informação que a grande maioria dos melhores jogadores de hóquei do país nasceram nos meses de janeiro, fevereiro ou março. Os autores suspeitavam que isso acontecia pela reunião de jovens atletas e sua separação de acordo com o ano de nascimento.

O artigo fazia sentido para Steve, mas ele pensou: “Ah, mas isso é hóquei no gelo, lá no Canadá, não tem nada a ver com futebol.” Alguns meses depois, Steve descobriu um artigo inglês, que chegava na mesma conclusão do canadense. A diferença era que o calendário usado na Grã Bretanha seguia o ano escolar, portanto começava em setembro e terminava em agosto. No Canadá, o início era em janeiro e seu fim, em dezembro.

Exemplificando. Uma criança na Inglaterra, que nasceu em setembro de 2010, jogava no mesmo time e na mesma liga, com e contra outras crianças que nasceram entre setembro/2010 até agosto/2011. Alguém nascido um mês antes, em agosto/2010, jogava em uma outra categoria, que começava em setembro de 2009.

Uma dúvida surgiu na cabeça de Steve. Será que os treinadores e olheiros não sabiam dissoSerá que eles tinham a consciência que estavam ignorando quase metade das criançasE logo após, o maior medo: “O que será da vida esportiva do pequeno Jamie?”

Não demorou muito para Steve começar a ter respostas. No verão de 2001, Jamie foi convidado a participar de um torneio com o time sub 9 da academia do Arsenal. O time era qualificado. Por exemplo, no comando do ataque, tinha um certo Harry Kane, hoje craque do Tottenham Hotspur e capitão da seleção inglesa. Jamie jogou muito bem, mas no ano seguinte, algumas coisas começaram a mudar…

No sub 10, Steve via alguns atletas assinando contratos, recebendo chuteiras e uniformes, os treinadores do Arsenal dando constante feedback sobre o desenvolvimento das crianças, e Jamie estava fora disso tudo. “Eu estava sempre no Arsenal, mas nunca fui realmente uma parte do clube.”, disse Jamie, lembrando aquele época.

Em 2003, Steve e Jamie foram chamados para uma reunião na academia e informados que o jovem não seguiria mais no elenco. Steve logo lembrou do artigo: “Estava escrito! É o efeito da idade relativa na prática.” Ele retornou ao artigo e leu que muitas crianças que “nasceram no mês errado” não geravam grande expectativas nos treinadores e as constantes dispensas causavam uma enorme frustração neles e muitos desistiam da prática esportiva. Steve fez uma promessa a si mesmo, que não iria deixar isso acontecer com o jovem Jamie.

Uma das ações de Steve foi redigir uma carta para a Federação Inglesa de Futebol, alertando-a dos efeitos da idade relativa. A mesma segue sem resposta até hoje. Essa carta foi a primeira de muitas, para a federação e também para a comissão européia do futebol. Esta última teve uma resposta, pedindo uma alternativa para Steve. Após vários meses desvendando o mundo da informática, ele desenvolveu um programa que calcula uma idade média, para cada time, levando em conta o mês e não só o ano de nascimento. Steve ainda aguarda uma posição da comissão.

Voltando a 2003. Após a liberação, Jamie jogava em clubes locais até que um olheiro do Queens Park Rangers, tradicional clube inglês, convidou-o para as categorias de base. A experiência durou um ano, com Jamie ficando praticamente no banco em todos os jogos. Parecia que a “carreira” do pequeno Jamie iria acabar antes mesmo de começar…

CONTINUA…

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte

A regra que falta ao futebol de base

Escrever sobre outro assunto que não seja a pandemia que assola o mundo parece meio fútil, mas as medidas para conter a disseminação do vírus, acabam dando tempo que normalmente não temos, em nossas vidas comuns. Portanto, vamos seguir falando (ou escrevendo) do trabalho nas categorias de base, principalmente no futsal e futebol.

Assistindo uma das centenas de reprises esportivas hoje disponíveis, me pego vendo um jogo de tênis, do grande Gustavo Kuerten contra Marat Safin, um tenista russo, pela final de um torneio na Alemanha. A partida, decidida no quinto set, foi emocionante, cheia de altos e baixos. Por diversas vezes, o treinador de Guga, Larri Passos, era filmado na arquibancada, torcendo e sofrendo a cada ponto. E dessa imagem, veio a inspiração para o texto de hoje. Treinador na arquibancada?

Quem vem do esporte coletivo é algo que chama atenção. Em alguns desportos individuais, é algo comum. Natação e atletismo, o mesmo acontece. Mas pesquisando os motivos, é algo mais logístico do que qualquer outro motivo. Numa competição de atletismo, são diversas provas ao mesmo tempo, algumas provas com 10, 12 atletas. Imagina se temos um treinador pra cada atleta no mesmo local? Realmente fica complexo.

Mas no tênis, esse problema logístico não ocorre. Afinal, na quadra temos apenas 2 jogadores, no máximo 4, quando temos disputa de duplas. A questão é uma regra bem antiga que existe no esporte. Não só o treinador não pode ficar na quadra, como não pode se comunicar com o atleta, mesmo estando na arquibancada.

Na modalidade, existe um grande debate sobre a manutenção da tal regra. Uns contra, outros a favor, mas uma frase de Roger Rasheed, que já treinou grande tenistas como Leyton Hewitt, Gael Monfils e Jo-Wilfried Tsonga, me chamou atenção: “Compreendo que os melhores jogadores não comprem a ideia (de permitir treinadores a ficarem dentro da quadra), pois ela faria a diferença e reduziria a margem de vitória. Acho que aí está o ouro, o pacote completo de um atleta.”

Outra citação se faz importante. “Isso vai resultar em excesso de informação. Creio que muitos jogadores em ascensão já sofram de excesso de instruções. Acho que isso os faria parar de pensar por conta própria.”, disse Sascha Bajin, treinador de Naomi Osaka, campeã do US Open em 2018.

Transportando para as categorias de base. Já imaginaram, os treinadores na arquibancada? Os jogadores decidindo por conta própria, sem a ajuda externa? Ideia muito louca?

Não sei e talvez nunca saberei, já que acredito que seja um mundo que nunca será real. Mas o caso nos faz pensar. Será que nossos treinadores capacitam nossos atletas a decidir? Ou são e serão eternamente dependentes do auxílio externo, dependentes das informações que recebem da comissão técnica? Principalmente nos últimos anos, se fala muito em tomada de decisão no futebol e futsal, mas deixamos os jogadores decidirem ou eles apenas executam as ordens dadas pelos treinadores?

Eu sei, muitas perguntas e poucas respostas. Sempre acreditei que tem treinador que ajuda e treinador que atrapalha. Tem treinador que quanto mais treino, melhor o time fica e tem treinador que consegue piorar a equipe a cada prática. Mas mesmo pensando apenas nos bons exemplos, será que esses treinos tornam os atletas capazes de decidir?

E só pra deixar ainda mais claro. Não quero aqui entrar no mérito das valências a serem treinadas, metodologias de treino, nada disso, já abordamos o assunto uma vez aqui, sobre as tomadas de decisão no futebol, confira aqui. Hoje quero discutir a dependência dos jovens atletas nas informações do treinador. Estamos preocupados em formar jogadores independentes? E vou além. Queremos formar jogadores independentes?

Em rodas de bate papo de treinadores, sempre surge a ideia de não termos os pais por perto, em treinos ou em jogos. “Imagina só? Uma partida sem pai pra ficar pertubando os atletas, que maravilha que seria!” Será que nas rodas dos atletas, não existe uma frase assim: “Imagina um jogo sem treinadores? Ninguém pra ficar gritando e enchendo o saco do lado de fora!”

Como disse no início, acredito que seja uma ideia que nunca será posta em prática, mas podemos pensar sobre. Por quantas vezes, como treinadores, decidimos pelos nossos atletas nas partidas? Estamos prejudicando sua formação com isso? “Ah, mas o técnico, do lado de fora, consegue enxergar melhor o jogo e assim, decidir melhor!” Ótimo, estamos decidindo melhor e com isso, conquistando mais vitórias, certo? Mas está sendo melhor para a formação daquele atleta?

Pra terminar, acredito sempre em equilíbrio. Um treinador que controla seu time como um jogador de videogame, apertando os botões para gerar qualquer ação de seu time, pode até vencer jogos, mas deixa uma lacuna grande na formação daqueles jovens. Permitir que construam suas ideias e decisões, é dever de um bom treinador, e deve ser estimulado sempre, mesmo que isso custe algumas vitórias na trajetória. Aos treinadores de futsal e futebol de base, deixo uma mensagem. Será que vale a pena nos imaginarmos como treinadores de tênis? Será que minha equipe está preparada para jogar sem a minha ajuda?

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte

O mês de nascimento e o futebol de base no Brasil

A cada dia que passa, o futebol recebe ainda mais novidades tecnológicas e educacionais, para que tenhamos cada vez mais estudos sobre o esporte e assim, melhorar seus treinos e jogos. Ao longo desse passar dos anos, outro aspecto pouco discutido também sofreu mudanças, e podemos chama-lo de perfil de jogador.

A definição de perfil no dicionário diz: “contorno gráfico de uma figura, de um objeto, visto apenas por um dos lados.” Dentro do futebol, acredito que não cabe de forma literal, mas podemos aproveitar bastante esse conceito dentro da esfera esportiva. Podemos entender que esse contorno de uma figura, seja a representação física desse atleta, um “modelo ideal” de atleta de futebol.

Será que em 30, 40 anos esse perfil sofreu alguma mudança? Se pensarmos que o futebol passou por diversas mudanças nesse período, fica claro que uma delas seja esse perfil. Temos como ponto comum que o treinamento contribuiu e contribui para essa transformação, mas se resume apenas a treinos mais modernos? Ou o processo de captação e seleção de atletas também se inclui nessa mudança?

Trazemos outro termo ao debate. Idade relativa. As categorias de base do futebol são organizadas e regulamentadas usando o ano-calendário como base, de janeiro a dezembro, quando falamos de Brasil. Então temos atletas com quase 1 ano de diferença entre seus nascimentos, mas agrupados numa mesma categoria, já que nasceram no mesmo ano. Essa diferença chamamos de idade relativa.

Como estudamos esse fenômeno? Usando como fonte os sites da FIFA e da CBF, tabelamos todos os jogadores convocados para as seleções brasileiras sub 17, sub 20 e adulta, que disputaram os campeonatos mundiais organizados pela FIFA, separando-os em quatro grupos:
– Nascidos em janeiro a março
– Nascidos em abril a junho
– Nascidos em julho a setembro
– Nascidos em outubro a dezembro

Falando de seleção principal, começamos nosso estudo a partir do elenco de 1950 até a última copa, em 2018. Levantamos os dados das 18 convocações e dividimos todos os jogadores nas 4 faixas descritas acima, de acordo com a data de nascimento. Fica claro uma diferença entre os períodos, mas dentro de uma margem pequena. De janeiro a março, temos 28,68% dos convocados, sendo este o maior percentual. De abril a junho, são 27,68%, de julho a setembro, 24,69% e o último período, de outubro a dezembro, apresentou o menor valor, com 18,95%.

Quando analisamos as categorias sub 20 e sub 17, fica bem claro uma grande diferença nesses valores. O primeiro mundial sub 20 organizado pela FIFA, aconteceu em 1977, desde então, 32,55% dos jogadores convocados nasceram entre janeiro e março. Quando olhamos para a seleção Sub 17, essa diferença fica ainda mais clara. Foram 15 participações brasileiras em mundiais, desde 1985, e dos 289 atletas convocados, 43,6% são nascidos no primeiro trimestre do ano, 15% a mais do que vimos na seleção principal.

Olhando mais de perto a seleção sub 17, podemos identificar uma tendência, com o passar dos anos. Agrupando as sete convocações nos mundiais da categoria, de 1985 até 1999, o percentual de nascidos no primeiro trimestre é de 34,13%, menor do que a média total. De 2001 até 2009, esse valor sobe para 48% e nas últimas três Copas do Mundo Sub 17 (2011, 2013 e 2015), chegamos a incríveis 55,56% de atletas convocados, que nasceram até o dia 31 de março. O último título brasileiro na competição aconteceu em 2003.

No sub 20, existe um maior valor visto no primeiro trimestre, mas mais próximo ao que podemos ver na seleção principal. Entre 2001 e 2015 (7 participações em mundiais, com 4 finais e 1 título), vimos que 34,27% dos convocados, nasceram entre janeiro e março. Talvez influenciados pelos números do Sub 17, o elenco sub 20 de 2015, último mundial, tivemos 47,62% de atletas no primeiro trimestre.

Escutamos sempre que as categorias de base têm como função principal, a formação de atletas para o nível profissional. E acreditamos muito nisso. Nas convocações dos mundiais de 2011 e 2013 no Sub 17, não tivemos nenhum atleta nascido no último trimestre (outubro a dezembro). Podemos dizer então que, jogadores que hoje, em 2019, têm entre 23 e 25 anos e nasceram nesse trimestre em questão, podem chegar a seleção principal, mas não representaram o Brasil em um mundial na categoria sub 17. Da mesma forma que, diversos atletas que estiveram presentes em uma competição mundial de base, não chegarão a jogar um mundial na seleção principal.

Claro que as razões desse fenômeno carecem de muitos mais estudos sobre o tema. A última convocação da seleção Sub 17, que participará de mais um mundial este ano, com o Brasil como sede, foi feita em setembro, com 24 atletas. 13 deles nasceram no primeiro trimestre, 54,17% da lista. Somando o segundo trimestre, são mais 5 atletas, então temos 18 dos 24 convocados, nascidos entre janeiro e junho, incríveis 75% do total.

Teoricamente, um atleta nascido em janeiro tem vantagem sobre outro, nascido em dezembro do mesmo ano. Com 11 meses a frente, esse atleta pode ser mais desenvolvido fisicamente e cognitivamente, possibilitando uma melhor performance no futebol, por exemplo.

Algumas ações já foram discutidas pelas entidades do esporte e por estudiosos do futebol, como dividir o ano de nascimento em 2, separando nascidos no primeiro e segundo semestre nas competições. Seria como ter um torneio para nascidos em 2007.1 (janeiro a junho) e outro 2007.2 (julho a dezembro). Outra ideia é que o atleta mude de categoria apenas quando fizesse aniversário. Nesse modelo, um atleta de dezembro de 2008, seria sub 11 apenas no último mês de 2019, e teria jogado no Sub 10 praticamente o ano todo.

Se temos a maioria dos atletas, nas seleções de base do Brasil, nascidos entre janeiro e março e a causa disso é uma predileção por jogadores mais desenvolvidos fisicamente do que outros, não podemos afirmar. Também podemos discutir que, se isso acontece na seleção, será uma consequência do que vemos nos clubes, que captam, treinam e avaliam esses atletas?

Outra hipótese é que, os clubes selecionam esses atletas nascidos no primeiro trimestre, para atender as demandas competitivas que temos hoje. Então se temos torneios e competições que realçam o desenvolvimento físico, ao invés do técnico e tático, será que esse modelo competitivo é o ideal para a formação de atletas?

Hoje, pelos números que foram mostrados, podemos afirmar que, estatisticamente, duas crianças que estão em algum clube de futebol, dentro das categorias de base, uma nascida em janeiro e outra em dezembro, não têm as mesmas chances de chegarem a uma seleção de base brasileira. Precisamos investigar as razões. E rápido.

 

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte