A praticidade da teoria

Podemos dividir, praticamente todos os campos de atuação profissional que existem, em conceitos teóricos e práticos. Nenhuma novidade sobre isso. Engenharia, economia, jardinagem e por aí vai, têm sua parte teórica e prática. Então, vamos entrar no assunto, dentro do mundo esportivo, especificamente do futebol e futsal.

Talvez uma grande diferença que o futebol tenha, das demais atividades, seja o jogo em si. Acaba sendo uma avaliação, por muitas vezes semanal, do trabalho tanto dos jogadores, quanto do treinador. Não vou entrar aqui se esta avaliação é fidedigna ou não, mas na prática, ela tem essa função. Então o jogo tem que ser importante para o planejamento feito e desenvolvido nas semanas prévias a ele.

Claro que, se formos falar de categorias de base, o jogo perde (ou deveria perder…) um pouco da importância, já que o grande objetivo é a formação a longo prazo do jovem em um atleta de alto rendimento. Mas mesmo assim, ele tem seu papel e deve sim, ser levado em consideração pelos envolvidos no processo. Então vamos lá, quanto do jogo está dentro do meu planejamento de treinos?

Futebol, futsal, com qualquer outro esporte, ele é prático. E caótico. Esse “caos” é gerado pelo jogo em si, adversário, arbitragem, torcida, sua própria equipe, todas combinadas, gerando esse ambiente, por muitas vezes, imprevisível. É dever do treinador buscar as soluções para destrinchar tudo isso, e durante os treinos, preparar seus atletas para esse enfrentamento.

Nesse ponto, que me questiono. Será que nós, treinadores, damos a importância que esse ponto merece? Por muitas vezes, vi apresentações espetaculares de conceitos de treinamento, com vídeos sensacionais, com gráficos muito bem feitos e, quando vamos para a quadra ou campo, vemos uma equipe bem diferente dessa apresentação. As ferramentas tecnológicas de hoje ajudam demais qualquer treinador, mas elas têm uma grande “falha”. Aceitam tudo que for escrito ali, sem reclamar.

Recentemente, temos muitos “Times de Powerpoint” por aí. Podem ser em PDF ou até em programas específicos super bem elaborados, com vídeos das manobras táticas e por aí vai. Precisamos de mais “times de quadra”, equipes práticas, que consigam chegar ao objetivo, utilizando com competência, todas as vertentes que o esporte pode dar.

Tenho certeza que, seja na prancheta, quadro tático ou no computador, o desenho feito ali terá 100% de sucesso. Seja lá qual for a jogada ensaiada feita, ou o plano coletivo de marcação, o fim da manobra será com um gol marcado a favor. Mas e na prática, será que o gol acontece sempre?

Especialmente na base, por muitas vezes, o caminho mais simples é o mais efetivo. Elaboradas movimentações para crianças de 8, 9 anos podem dar certo? Claro que sim! Depende de vários fatores e um deles é a marcação do time adversário, que também está num nível inicial. Todo treinador fica feliz quando seu time marca um gol de uma jogada de escanteio, por exemplo. Mas será que ele já se perguntou se o gol saiu por mérito na movimentação ofensiva ou por uma deficiência grande da parte defensiva, que poderia ser iludida com ou sem a manobra ensaiada?

A grande ideia é jogar da forma que eu treino ou treinar da forma que eu jogo. Esses dois eventos esportivos têm que estar ligados sempre. Lembrem que qualquer folha de caderno, documento do Word ou rabisco na prancheta, aceitam tudo que for colocado ali. Já na prática…

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte

O treinador além das quatro linhas

Ano novo, vida nova! Ou pelo menos é assim que diz o ditado popular. Abrindo os trabalhos do Instituto Pensando Esporte em 2019, trazemos em nosso blog, o primeiro texto do ano. Confira!

As funções de um treinador estão claras para a grande maioria das pessoas, estejam elas dentro ou fora do ambiente esportivo. Dar treinos, construir a estratégia da equipe, comandá-la durante a partida são algumas delas e sempre têm a atenção dos profissionais, diariamente. Mas será que o papel do treinador se resume a isso dentro das quatro linhas da quadra ou campo?

Especialmente na formação dos jovens atletas, o papel do treinador vai muito além da rotina de treinos e jogos. Sejam crianças de 7, 8 anos indo até os adolescentes, o comandante da equipe é visto com respeito e admiração por esses meninos e meninas. Sempre? Talvez não, mas sem dúvida, na grande maioria das vezes, o treinador é a referência esportiva do jovem atleta.

Com isso definido, cabe ao profissional, seja lá em qual nível de categoria de base que ele esteja, assumir esse papel e atuar conforme essa necessidade. É difícil? Sem dúvida! Mas essa atuação além do básico, poderá ser o diferencial para esse treinador, não só pensando em plano de carreira, mas na montagem e desenvolvimento da equipe durante a temporada.

Nesse momento entram dois aspectos cruciais. Primeiro, é a formação desse profissional em outras competências além da questão técnica do esporte. Se esse treinador carece de conhecimento em áreas, por exemplo da psicologia, pedagogia, sociologia, poderá ter muita dificuldade. Ainda sobre isso, existem diversos treinadores, com formação superior, sabedores da grande maioria desses conceitos que, no momento que a bola rola, esquecem completamente de tudo isso, não colocando em prática esses ensinamentos.

O outro ponto chave desse trabalho fora das quatro linhas é o posicionamento do responsável do atleta em toda essa engenharia. Ele pode ser um veículo importante para “dar eco” ao treinador, perante seu filho(a), ajudando todo o processo ou ser um dificultador para a criança, para a comissão técnica, para o clube e para ele mesmo.

Uma vez ouvi de um treinador de futsal que não tinha a paciência necessária para trabalhar com crianças.
Mas ele trabalhava!
Acredito eu que, esse trabalho, era feito com muita dificuldade e com certeza, deixava a desejar em alguns pontos. Ainda escuto algumas frases dessas e normalmente, quando alguém quer saber a minha opinião, respondo assim: “Se não tem paciência para trabalhar com as crianças, busque outra função para a sua vida.”

Concluindo, deixo a mensagem aos treinadores que, busquem sempre seu desenvolvimento olhando para as questões técnicas e táticas do jogo, métodos de treinamento e estratégia, tudo isso é fundamental. Mas não deixem de lado todos os outros conceitos que fazem parte de uma formação esportiva ideal. Estejam antenados com outras áreas do conhecimento, que podem ser fundamentais para o desenvolvimento dos atletas e seu, como profissional.

Busquem saber a rotina de cada jovem atleta, como está a vida dessa criança em casa, na escola, na área onde mora. Talvez converse sobre assuntos que não sejam posse de bola, marcar gols, defender…

Feliz 2019 a todos!!

 

 

Autor: Rodrigo Nunes
Coordenador técnico das categorias de base do C.R. Flamengo
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte

Treinamos para jogar ou treinamos para melhorar?

O blog do IPE vem abordar o treinamento dentro das categorias de base. Sobre a sua importância, acredito que seja claro seu protagonismo, mas a ideia é ir um pouco mais a fundo na questão. Lembrando uma grande frase do craque Romário, “treinar pra quê?”, que chegou a virar uma música, queremos discutir com você os motivos desse treino, em que essa prática quase que diária, está conduzindo nossos pequenos jovens, aspirantes a atletas.

Se levarmos o conceito de treinamento para o teatro, por exemplo, podemos identificar bem que o treino é um ensaio do que será apresentado na peça, que torna-se o jogo, dentro do âmbito esportivo. Pois bem, um bom ensaio então é o que fica mais próximo da realidade da peça possível, certo? Será que nossos treinos, nos campos e nas quadras, estão atrelados ao que vamos encontrar no jogo?

Se assumirmos como verdade que meu treino tem que estar contextualizado com o jogo, posso afirmar que sua principal função é preparar os atletas para a partida. Mas, dentro das categorias de base, é um caminho eficaz? Será que, durante as atividades que proponho, busco o melhor desempenho no jogo ou procuro melhorar a capacidade daquele ou daqueles atletas? Ou o jogar melhor significa estar melhor formado dentro do esporte?

Bem, acho que já fizemos perguntas demais… Vamos às respostas.

Quando perguntamos no título se treinamos para jogar, entendemos que esse treino tem como objetivo principal ressaltar a estratégia a ser aplicada, não só na próxima partida, mas como dentro do modelo de jogo, que o treinador ou o clube acreditam. Isso pode limitar a formação do atleta? Dependendo do foco, pode sim. De uma maneira geral, o jogo nas categorias de base carrega uma série de situações-problemas, de ordem técnica, tática, física e psicológica, que os jovens atletas ainda não têm capacidade nem maturidade para solucionar.

Caso o treinador vise somente ao jogo, pode ocorrer uma série de atropelos, onde-se dá uma ênfase maior em conceitos e comportamentos, que talvez, sem a presença do jogo, não tivessem tanta importância e poderiam ser trabalhados em idades maiores.

Por outro lado, sem a presença do jogo, podemos ter prejuízos nessa mesma formação esportiva. A competição traz aspectos que são praticamente impossíveis de recriarmos, portanto a vivência desse jovem, adquirindo uma experiência, é fundamental para a formação do mesmo. Nesse dilema, acredito que o equilíbrio entre o treinar para jogar e treinar para formar seja a fórmula de sucesso a ser seguida.

Colocando em prática esse equilíbrio, estou fazendo um trabalho melhor? Na minha opinião, sem dúvidas, mas acredito que exista ainda um método mais eficaz. Afinal, formamos o atleta para quê? Para tornar-se um profissional do esporte que vai jogar, durante toda a sua carreira. O meu treino tem que incluir os dois aspectos que vimos antes, mas a melhor abordagem é construir uma prática que atenda aos princípios formativos do jovem, usando o jogo em si, como um catalisador para que essa engrenagem funcione ainda melhor.

Se eu quero melhorar o gesto técnico do passe do meu atleta, temos que abordar contextualizando esse gesto, com a sua aplicação no jogo. Construo um ou mais exercícios para que possa potencializar a experimentação do passe, mas não posso dissociar esse elemento técnico do que será encontrado pelo atleta durante os jogos.

Claro que quanto menor a idade, essa contextualização em relação ao jogo é menor, já que, mesmo em torneios adaptados a essas idades, o jogar exige muito além da capacidade do atleta, em modo geral. Mas com o passar dos anos, eu posso ter um foco bem individualizado num determinado atleta, para a correção de algum aspecto, e exercitar essa melhora dentro do contexto coletivo, onde está inserido o meu modelo de jogo.

É difícil? Bastante. No entanto, a cada dia que passa, a informação e sua disseminação são mais facilitadas, ajudando bastante o treinador no planejamento de seu treino. Se quero jogar com passes curtos e aproximação dos jogadores, criando linhas de passe, tenho que buscar moldar isso no meu treino e digo não só na questão tática, mas desde do meu aquecimento até o fim da atividade, e ainda por cima, passar um conteúdo aos meus atletas que sirva para vencer o jogo domingo e que ele possa carregar esse conceito para a sua formação.

Um dos maiores desafios dos treinadores, independente das idades em que atuam, é conseguir enxergar os princípios nos quais acredita, trabalhados no treino, de forma clara no jogo. Tenho que jogar da forma que eu treino, senão, o que adianta? Escutei milhões de vezes a frase que “Treino é treino, jogo é jogo” e a cada dia que passa, reforço a minha certeza que ela está errada.

Treino e jogo são duas partes que se completam, construindo uma melhor formação para o jovem atleta. São duas partes de uma coisa só. Sempre. Em qualquer idade. Em qualquer local.

 

Autor: Rodrigo Nunes
Coordenador técnico das categorias de base do C.R. Flamengo
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte

Professores-Treinadores ou Treinadores-Professores?

Nas categorias de base, independente do esporte, temos a figura do treinador como central em qualquer discussão que possamos iniciar. O papel fundamental que esse profissional tem é claro, e com uma boa conduta e trabalho, o sucesso da formação de atletas é garantido. Mas e a abordagem desse treinador, como ela deve ser feita? Existe um modelo ideal? O profissional consegue (ou precisa) se descolar de ser um professor para ser um treinador?

Antes da polêmica, precisamos definir esses dois termos, professor e treinador. E não vou entrar no mérito da formação, ter ensino superior ou não, isso é assunto para outro post. Eles são diferentes? Se complementam? São rivais, dentro do esporte? Vejo a diferença entre eles, apenas a abrangência de cada um. Professor pode ser aplicado a inúmeros ramos e o termo treinador, entra de forma específica, na prática esportiva.

Se coloco que um dos objetivos do treinador, nas categorias de base, talvez o maior deles, seja ser um potencializador daquela criança, buscando desenvolver as habilidades, dentro da modalidade escolhida, posso dizer que o professor de matemática, dentro da sua sala de aula, tem os mesmos objetivos, certo?

Talvez, olhando a nossa prática, não seja tão certo assim. O que gera uma outra questão. Os objetivos das categorias de base estão alinhados com a prática educacional, em outros ramos? Por ser futebol, basquete ou golfe, existe a prerrogativa de ser tão diferente com a sala de aula? Se a resposta é sim, pode ser uma justificativa em buscar perfis de profissionais mais próximos de serem treinadores do que professores. Seguindo nessa mesma linha, isso é bom?

Professor carrega conceitos educacionais para a sua prática. E esses conceitos podem produzir uma metodologia mais adequada para a realidade onde será empregada. Correlacionando com outros profissionais que participam da mesma formação, podem gerar uma equipe de trabalho extremamente eficiente a disposição de jovens atletas. Então estamos buscando mais professores e menos treinadores? Ou treinadores com um perfil de professor?

Vamos voltar as definições dos termos em questão. Ser treinador não pode, e não deve, permitir deixar de lado o atuar do professor. O objetivo competitivo, presente nas categorias de base, não pode ser mais importante, que possa dar um salvo conduto ao treinador para que a sua prática não esteja embasada didaticamente. O querer vencer tem que ser um aspecto para que o treinador atinja seus objetivos, individuais e/ou coletivos, sem atropelos, erros ou avaliações.

Escuto muito sobre os objetivos coletivos do treinador, indo ao contrário dos professores. Não consigo ver isso, como uma causa de objetivos diferentes em ambos. Na verdade, o professor em sala de aula, por exemplo, poderia incorporar o pensar coletivamente das categorias de base. Temos as avaliações, certo? Na sala de aula, elas são individuais, e em termos gerais, sem qualquer relação entre elas. Por que não um objetivo para toda a sala? Ações em grupo ou com todos os alunos, na busca de uma melhor nota de toda a turma, poderiam ser incentivadas, carregando conceitos tão presentes nas quadras e campos, como cooperação e trabalho em equipe.

Numa sala, como numa equipe de futsal, por exemplo, temos alunos/atletas excelentes em um aspecto e que possam ter deficiências em outro. Temos um ótimo driblador, que tem dificuldade em finalizar as jogadas, da mesma forma que temos um aluno excelente em matemática, que não vai tão bem em história. No esporte, o jogo coletivo oportuniza que os indivíduos se complementem e ajudem uns aos outros, algo que ainda temos dificuldade em ver nas salas de aula.

Concluindo, o treinador deverá sempre, por toda a sua prática dentro do esporte, carregar conceitos que estão exemplificados nos milhões de professores que existem. Não podemos e não devemos dissociar esses termos nunca. Uma das minhas referências na formação esportiva, o eterno mestre Ricardo Lucena, tinha uma frase sensacional: “Hoje eu estou treinador, mas sou professor.” Por mais professores, não aqueles que apenas têm o título, mas que tenham a alma educacional, nas quadras, nos campos, na vida!

 

 

Autor: Rodrigo Nunes
Coordenador técnico das categorias de base do C.R. Flamengo
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte